segunda-feira, outubro 24, 2005

penitência

a nossa vida nem sempre é aquilo que queremos, mas é com ela, com tudo o que tem de bom e de mau, que temos de viver todos os dias.

sou pois acusado, legitimamente diga-se, por alguns de não me dedicar o suficiente a este palco, de não actualizar com a frequência que se exige as palavras neste teatro e, sendo esta a mais pura e cristalina das verdades, assumo a totalidade da culpa.

o processo e a sentença obrigam-me agora a reflexão séria e a atitude firme. veremos do que sou capaz.

um ano à beira-mar

tudo passa veloz. os locais, as pessoas, as emoções, cada manhã e cada fim de tarde, conjugações de verbos num tempo sempre passado e já vivido. e ficam para nós, em cada um de nós, as memórias na alma e na pele [como cantaria a Mafalda].

a vela que
à beira-mar se levantou conta já com história, construída nas idiossincracias de tantos e tantos marinheiros, em tantas e tantas ondas, numa viagem sempre atenta, verdadeira e pessoal.

a praxe obriga-me a dar os parabéns ao zé luís e, num momento seguinte, o desejo de felicidades no seu novo trabalho, lá
do alto do castelo. são frases feitas, pois são: o verdadeiro significado delas mora no olhar, no abraço amigo.

o teatro, por seu turno, agradece-lhe as palmas (e as palmadas). e pede-lhe que continue, porque, como já se disse, tudo passa, mas nada deixa de ficar gravado seja lá onde for.

segunda-feira, outubro 17, 2005

gotas de sal

quantas mais vezes tentava esboçar um sorriso, mais o teu olhar se confundia com o mar. e nesses instantes entre a realidade e o sonho, quando sei estar perto do fim o céu, nunca conseguirei tirar do dicionário [ou da alma] palavras que cheguem [ou que falem somente].

impotente. o teu sofrimento alimenta a minha inadaptação à dor, aos teus olhos manchados de angústia, ao teu rosto coberto de sal. não fosse a chuva miudinha que, por agora, me lembra o sangue quente que ainda corre e, neste momento, seria uma bola de fogo, de raiva, quem sabe o furacão agreste que [felizmente] nunca senti, rumo à explosão final: um rebentamento de mim.

e por favor – eu sei que consegues – não me fales do sol que vai voltar a nascer. mostra-me antes o brilho dos teus olhos por entre as gotas que te vincam a face. e deixa-me sentir nos teus lábios o sabor da vida, a certeza de que, juntos, duas cerejas inseparáveis, beberemos, já esta noite, essas lágrimas como um cocktail doce, suave e sem álcool.

foto: ["ashes everywhere", sweetcharade, 9.10.05]

terça-feira, agosto 30, 2005

pessoas como pessoa

há pessoas que ainda me conseguem surpreender.

"de branco, de espada e a cavalo", como diz o poeta Alegre. com a coragem dos grandes guerreiros, sem medo das consequências; corpo hirto pronto para a luta. à espera de um som, um único som, seja ele o de uma trombeta, uma sirene, um raio ou o dedilhar de uma viola.

saem de si, revelam ao público o que o espelho há muito guarda para si, e, fruto de uma qualquer varinha de condão, aí estão eles prontos a chorar por ti, por mim, por nós.

com uma língua, a letra "P", livros debaixo do braço, martelo na ponta dos dedos, caneta atrás da orelha, de mil e uma formas, dispostos a fazer de um país [quem sabe de Portugal], de um povo [quem sabe o nosso], de alguma coisa outra coisa ainda melhor.

são pessoas que acreditam e, que com amor, conseguem prolongar os sonhos para lá das madrugadas, através das manhãs de sol.

ainda há gente assim. como nos livros. [e eu procuro desalmadamente essas pessoas]

quinta-feira, agosto 25, 2005

tributo

a indiferença não encontra refúgio em mim. não sou capaz de esquecer. e a revolta sabe a pouco.

ontem, vi a serra a arder outra vez. tive o coração tão pequeno.

felizmente, há anjos que descem à terra. vindos do céu os aviões são aos nossos olhos enviados de Deus. ou de outro Ente qualquer [sempre] muito superior a nós.

e num espaço de esforço, dedicação e profissionalismo ficam só [um só tão imenso] marcas da natureza enfurecida, espicaçada pelos homens: cinzas e lágrimas.

e tudo o que se diga é tão pouco quando há homens que dão a vida para salvar outras vidas. e bens. e tudo o resto.

ontem, a eficiência dos meios (excelente coordenação, rapidez, quantidade e eficiência) mereceu as minhas palmas. e apesar do que ardeu a Serra da Boa Viagem continua verde: a cor da esperança.

segunda-feira, agosto 22, 2005

cinzas

com o passar dos dias ficamos imunes aos rigores das estações. já nada importa, nada faz sentido. as forças da natureza nas mãos dos homens são armas impiedosas. e apesar de, intimamente, me ver julgado a saber as respostas, não consigo evitar a pergunta: porquê?

sobram os olhares tristes dos rostos cansados que deixam cair lágrimas nas cinzas.

António Cruz' 2005 [figueira.net]

quinta-feira, julho 21, 2005

dissonâncias globais

Planeta Terra [Mundo], Século XXI

o Sol lá fora está hoje encoberto / como quem tem vergonha de olhar / mira a medo o Mundo descoberto / e tem medo do que possa mirar

desconfia das grandes plateias ­/ dos sorrisos bem engravatados / e adivinha nos gestos vis teias / ocultas sob discursos inflamados

corpos tratados sob Declarações / dos direitos da gente inchada

que valem em pequenas porções / migalhas de gente numa estrada / percorrida por milhões e milhões

feitos de fome, dor e mais nada

texto: [Ricardo Manuel Santos, 12Mar.03] imagem: [Gwenaël Bollinger, 29Mai.05]

sábado, junho 25, 2005

vindo do céu

venho das estrelas / e desço à realidade / sentado nas asas de um pássaro

gostava de lá viver a eternidade
isolado na paz do prazer / do teu regaço

e há uma gota que me foge / pelo rosto segue / à passagem do tempo
e lá longe fica o teu abraço / numa doce prece / no calor do momento

e as linhas da estrada passam / e o mundo avança / sempre mais triste e triste

o brilho do sonho apagou-se
é lembrança, só lembrança / que em mim existe

e eu vou, tenho que ir sozinho / que o céu sem ti / não fica no meu caminho...

texto: [Ricardo Manuel Santos, 9Set.03] imagem: [Ana Borges, 30Abri.05]

sexta-feira, junho 10, 2005

fragrância azul

submergir. do azul forte, escuro, denso até ao limite das águas. até o sol nos banhar a face, até a pele ganhar a cor e a forma, o corpo o peso e a medida. até nos sentirmos respirar, asas livres sem pressão. sem medo.

a fragrância do azul sabe a mar. tem sal e movimento, tem estrelas, pedras, tem algas e mais sal. dizem que sempre tem sol. dizem que sempre tem força. mas eu acredito que o azul [o mar] também sabe chorar. e tem lágrimas que são gotas, que são nossas, que são minhas, que não são de ninguém.

submergir dos teus vestidos azuis enrolados em mim, presos ao sabor do meu corpo. decifrar a textura do vento, das areias que incomodam até tu chegares, da pele que usas com cheiro de amor. encontrar os teus lábios rubros envergonhados do teu olhar azul.

como o céu e o mar se pintam, nos mergulhos que damos abraçados. e tu, farol, que nos olhas enamorado.

pudera os dias viver só de fragrâncias azuis. como o de hoje.

»» azul C-A #2

sexta-feira, maio 20, 2005

qualquer coisa de bom

são tantas as coisas boas que o Mundo tem para nos oferecer. são tantas.

para ler. “Qualquer coisa de bom”, é bom de se ler. é uma sobremesa sonhada, daquelas que raramente nos vêm à mesa, mas que nunca nos cansamos de imaginar. até ao dia em que, sonho ou não, conseguimos dosear as quantidades certas de moca, chocolate e baunilha e nos servimos a nós próprios de um doce beijo.

para ver e ouvir. fazedores de ambientes, criadores de viagens: marinheiros, aventureiros, sempre os primeiros, em terra ou no mar. recriam auroras, os sons do mar, os pássaros, o vento, entre sinfonias inéditas e clássicas, num abraço caloroso à música, num abraço apertado ao fascínio. o som liso e doce, o som majestoso e forte, de uma centena de instrumentos afinados a uma só voz. a banda da armada, em paz e em terra, num concerto absolutamente encantador.

para sentir. o doce salgado do mar, o prazer dos teus lábios.
porque o Mundo tem muitas coisas belas para nos oferecer. basta estar atento.
das ondas e do mar

quinta-feira, maio 12, 2005

à espera

com a certeza das horas que pintam rugas, vincam gestos e acenam despedidas, fico com a sensação estranha de que o Mundo é incapaz de ser feliz.

nos arvoredos da serra, por entre os ziguezagueados caminhos de asfalto comido, encontro pequenos pedaços de madeira caídos, troncos esquecidos, cavacas sem cavaco e folhas tristes. o chão brilha de vez em quando ao sabor do vento, sorri quando vê o sol.

e na minha paz interior, reflectida nas telas de um Homem capaz de conquistar-se a si próprio, de azul celeste, de vermelho fogo, de cor e de sal, há um infinito medo da próxima manhã. acreditem, sinto medo das falésias, do que acaba e se afunda no mar. medo do sol não me sorrir como hoje.

porque sei que ninguém é feliz eternamente. porque há sempre manhãs doces, amargas, há sempre emoções, dores, beijos, dias, horas. porque me ensinaram o significado de carpe diem, mas não me disseram que viver pode ser tão humanamente mágico.

terça-feira, maio 03, 2005

acreditar

há sonhos que não passam dos primeiros raios de sol. finam-se nas manhãs, perdidos nas loucuras da noite, entre um suspiro e uma estrela mais brilhante. os sonhos não gostam de dúvidas.

senti naquela hora que as minhas lágrimas sabem a sal. pude ver o meu rosto feliz reflectido nas palmas e nos sorrisos da plateia. nos abraços que se seguiram senti o reconhecimento e o cansaço, pela primeira vez, deu lugar à paz.

como é bom ver as luzes que se apagam depois das emoções vividas, depois dos sons nos trazerem de novo ao pequeno teatro. a verdade é que as pancadas de Molière ouviram-se mesmo. o texto batido ao longo dos dias vestiu-se de formas, ganhou voz e soube até questionar a verdade. porque é disso que se trata: uma verdade que dói.

se fosse fadista hoje cantaria. valeu a pena. pois é, vale sempre. porque há deles - os sonhos - que se realizam. basta não desistir e acreditar.

e é isto que, sem dúvidas como nos sonhos, faremos sempre que subirmos ao palco. até que a alma nos doa.

num palco escondido por aí. teatro de amadores, mas só porque quem faz também ama e sofre.

quarta-feira, abril 20, 2005

cansaço

"Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem
"
Sophia de Mello Breyner

nada mais.
só o cansaço. e a certeza de que estás aí. ao meu lado.
tocando-me.

quinta-feira, abril 14, 2005

caminho insofismável

não é nada fácil andar atrás das coisas que nos fogem pelos dedos. como as ondas do mar, o vento, os teus cabelos e as minhas palpitações, o teu sorriso ou os nossos suspiros.

também não é nada fácil ser refém das palavras que roubaste ao mundo, aos dicionários ou à minha boca. como as que ouço pelo ar, como as que dançam, as que choram ou as que fogem da razão.

fácil não é escolher temas para a banda sonora do teu acordar. como os que sonho durante a noite, os que roubo à madrugada, os que canto ao sol ou componho ao luar.

amar-te também não é fácil. porque fáceis são as canções que se dançam, mas não se sentem, que se conhecem, mas que não se guardam.

mas mais difícil ainda era viver sem ti. sem fazer das letras uma frase feita.
caminhos »»

sábado, abril 02, 2005

Palma(s), Jorge

ou o alucinante concerto de um homem alucinado.

o Jorge esteve e não esteve lá. talvez o Palma (ou as palmas) por lá andassem. meio confusas, absortas, entre o real e o imaginário. a verdade é que o concerto aconteceu e será, de facto, muito difícil de esquecer... uma verdadeira alucinação!

ao som do “Norte”, com algumas incursões por histórias mais antigas (e tão ao nosso gosto), o que obtivemos desde o início foi, sem dúvida, um simplesmente “deixa-me rir”... que grande pedrada! mas também o que esperaria o público de alguém que, ao pequeno-almoço, degusta, nada mais, nada menos, que dois ovos estrelados e uma super-bock?

cheguei ainda a questionar a veracidade do palco: têm a certeza de que tudo isto não é encenado? pelos vistos não era, mesmo apesar de, como lembrou o artista, ser dia das mentiras. e, no fim, o que ficou, para além do excelente som na sala e dos bem conseguidos efeitos visuais, foi um Centro de Artes Espectáculos (CAE) “estupidamente” bem disposto.

a questão que fica é: teria o concerto sido tão memorável se Jorge Palma estivesse sóbrio? sinceramente acho que não. o essencial, a música, estava lá. o resto são coisas “que não interessam nada”. where’s next?

quarta-feira, março 30, 2005

sentidos que voam

sabes, sinto-me pássaro. não sei o tom das palavras que me suportam a alma. apenas lhes sinto o tacto e o cheiro e tudo me faz lembrar de ti. ando num voo rasante sobre as ondas...

... constantemente em desequilíbrio e raros são os momentos em que te ouço uma frase completa. há muito que não leio jornais e até o mar se silenciou. caio tantas vezes e levanto-me outras tantas e acabo sempre a chorar e também a rir como uma criança que brinca na rua.

disseste: ohhh amor!... não fosse eu ficar toda vermelha e verias nos meus olhos a resposta à tua pergunta. sorri. não por estares de facto vermelha que nem um tomate, mas porque sabia mesmo a resposta.

sim, essa mesmo: aquela que me trouxe até aqui e me deixou neste estado. um estado pouco católico, diga-se a bem da verdade, até porque nem baptizado deve ter sido. alguém sabe que nome dar ao que sinto?

pois, amor, eu sei: isto é o que dá andar nas nuvens.

(voar)

domingo, março 27, 2005

teatro

Mensagem do Dia Mundial do Teatro

Socorro!
Teatro, vem em meu socorro
Durmo. Acorda-me.
Estou perdido no escuro, guia-me, pelo menos em direcção a uma vela
Estou preguiçosa, envergonha-me
Estou cansado, ergue-me
Estou indiferente, bate-me
Fico indiferente, parte-me a cara
Tenho medo, dá-me coragem
Sou ignorante, educa-me
Sou monstruosa, humaniza-me
Sou pretensioso, mata-me de riso
Sou cínica, confunde-me
Sou imbecil, transforma-me
Sou má, castiga-me
Sou dominante e cruel, combate-me
Sou pedante, troça de mim
Sou vulgar, ensina-me
Sou muda, solta a minha língua
Já não sonho, chama-me cobarde ou imbecil
Esqueci-me, lança sobre mim a Memória
Sinto-me velha e instalada, faz saltar a infância
Estou pesado, dá-me a Música
Estou triste, vai buscar a Alegria
Estou surda, em tempestade faz uivar a Dor
Estou agitado, faz subir a Sensatez
Estou fraca, acende a Amizade
Estou cega, convoca todas as luzes
Estou submetida à fealdade, manda entrar a Beleza conquistadora
Fui recrutada pelo ódio, concede-me todas as forças do Amor.

Ariane Mnouchkine, Encenadora
Tradução de Carmen Santos (enviada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Espectáculos), recebida, via e-mail, através do portal ANTA

não resisti. porque hoje é também o meu dia. se bem que o teatro não é de um dia, mas de todos os dias. não resisti. e, como não podia deixar de ser, esta noite vou ao teatro.

sexta-feira, março 25, 2005

velhos

passam os dias e sentes que és um perdedor
já não consegues saber o que tem ou não valor
o teu caminho parece estar mesmo a chegar ao fim
pra dares lugar a outro no teu banco do jardim

mas a alma não tem idade. a alma não comemora aniversários. a alma vive os dias, sente as emoções, chora as horas, sempre da mesma forma.

no ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem”, escreve-nos Gabriel García Márquez , no seu «Memória das minhas putas tristes». li o livro numa tarde: um elogio à vida, ao amor. o colorido de uma vida, carregada de memórias, enrugada de boémia, rendida aos prazeres do amor. quente, doce, de chocolate. sem idade. sem sexo. só amor.

e não resisti, uma vez mais, à voz da Mafalda Veiga:

o olhar triste e cansado procurando alguém
e a gente passa ao seu lado a olhá-lo com desdém
sabes eu acho que todos fogem de ti
pra não ver a imagem da solidão que irão viver
quando forem como tu
um velho sentado num jardim

velhos são os trapos. e os trapos não sofrem. os trapos não amam.
Mafalda Veiga, Velho,
sentado num banco do jardim

terça-feira, março 22, 2005

casamentos

não imaginava o casamento das acácias com as mesas de madeira de carvalho e os seus bancos corridos, em plena serra. sempre achei que as acácias não deviam ser tocadas, invadidas. tinha até medo de que os olhares pudessem de alguma forma, de qualquer forma, intimidar as pobres acácias, levando-as a assumir uma atitude envergonhada – descolorida, entenda-se.

e os casamentos entre a laranja e o leite provocam dores de barriga. foi o que eu sempre ouvi dizer e o que me levou, até aos dias de hoje, a enjeitar tais degustações por mais vontade que tenha. é certo que até pode ser um manjar dos deuses, mas eu sempre confiei muito na sabedoria popular. não vá o Diabo, ou outro ente qualquer, tecê-las.

depois há os casamentos obrigatórios: cor-de-rosa para as meninas, azul para os meninos. curiosamente, sempre gostei muito do azul. do mar, do céu (e nunca do FC Porto). provavelmente, fruto de uma aprendizagem guiada à rica pelos padrões sociais das cores. felizmente, há hoje em dia a moda das meias às riscas, tipo arco-íris. e os meninos e as meninas podem, finalmente, ser de todas as cores.

a terminar, temos os casamentos humanos. o matrimónio não é mais do que um contrato social que dá direitos e cria deveres, disse-mo a minha professora de Direito. Lembro-me de, naquele momento, me ter arrepiado e mentalmente a ter condenado, muito mais por ser uma mulher a dizê-lo. onde estava a sensibilidade feminina para a causa? hoje dou a mão à palmatória: quem sabe, sabe.

e de casamentos estamos conversados.

sexta-feira, março 18, 2005

terapia do corpo e da mente

esvaziei-me das dores que trazia penduradas ao coração. libertei-as ao vento e gritei as palavras que ouvira dos tempos da revolução francesa: "liberté, égalité, fraternité". o teu sorriso terno apenas me disse aquilo que eu já sabia. nem mais uma palavra: estou louco.

divorciei-me também das palavras que o vento trazia de outras bocas. de línguas ásperas, em nada doces como a tua. fechei-lhes as janelas da minha porta e baptizei a minha vivenda: «vivenda amor». piroso. pois é. deixa lá.

roubei depois ao tempo os ponteiros do relógio e escondi-os debaixo da minha cama. desde esse dia tem-se escondido das rotinas habituais. dos textos e das palavras. eram 2h15, a hora em que te senti no desejo da paixão e ele - o relógio - nunca mais andou.

entreguei-me, por fim, definitivamente nas tuas mãos. sei que agora nada é firme. o apoio do meu corpo resume-se às pétalas que desenham o teu rosto de flor, mas o embalo é meigo. cresci também. perdi o chão, mas, ri-te agora, ganhei o céu.

a terapia diz que a loucura é saudável se a mente souber sorrir dela. poeta eu? não. apenas num estado de felicidade pura. conscientemente. estou louco, pronto.