sexta-feira, setembro 29, 2006

à 6.ª

com o cair da semana chegam os balanços e as balanças. raramente choro à sexta-feira, com as devidas excepções aos serões preenchidos pelos dramas da sétima arte europeia – aquelas sessões em que o fungar da vizinha da cadeira ao lado incomoda mais que o ruminar das pipocas às cores.

a semana trouxe os aguaceiros, algumas descobertas intrigantes no campo pessoal, com profunda incidência para o caroço que insiste em crescer junto à nuca, a certeza crescente de que este governo é uma fraude política e a dolorosa notícia, publicada numa revista da especialidade, que dá conta do romance entre a Soraia Chaves e o Rodrigo Menezes – conclusão final: o mundo é demasiado injusto.

por isso, esta noite vou beber uns copos com os amigos e ficar a ver passar as miúdas, maquilhadas e sorridentes, passeando os seus decotes provocantes e empenhando, qual guerreiras ao ataque, o copo de safari com sumo de laranja, em pleno desafio às nossas alienadas hormonas.

à vista delas, talvez esqueça a semana e os processos que ficaram pendentes para segunda. que o papa reze por nós e que os do outro mundo não o ouçam.
imagem: [“salsa”, Liliana]

terça-feira, agosto 15, 2006

ao vento

a camisa que esvoaça ao vento, presa na corda de nylon, faz-me lembrar o teu corpo que dança. leve, hábil e firme. acena ao mesmo tempo que as folhas das árvores e curva-se com as flores vermelhas, azuis, lilases e brancas do jardim da vizinha. a tua alma escondida numa camisa de dormir.

ontem a camisa ficou aos pés da cama. ao meu lado apenas o teu corpo delgado, escurecido pelo sol, de pele aveludada e quente. adormeci aninhado nos teus cabelos, desfrutando do prazer dos teus beijos, meio loucos, meio sérios. o suor deu lugar à lua que nos espreitava embevecida através da janela semiaberta.

esta manhã, lá fora, o céu faz desenhos de algodão. a brisa lembra os castelos fantásticos e, na minha imaginação, aguardo a chegada da fada-madrinha. talvez sejas tu, que me sorris, secando os cabelos molhados com a toalha que comprámos em Albufeira. lá fora já não há lua. apenas a tua camisa a recordar o teu cheiro.

segunda-feira, agosto 14, 2006

casca de laranja

por passos perdidos pisei uma casca de laranja. do chão emergiu o aroma forte e agrume dos citrinos frescos. o perfume de essências naturais que revestem a tua pele assaltou-me os sentidos.

cobri o teu corpo de Carnaval. a laranja serviu de mote ao fato que envergaste naquela noite sem céu nem estrelas. sorrio ao pensar que parecias um m&m’s inchado de chapéu verde na cabeça.

ao pequeno-almoço o sumo natural deixou a mesa cheia de cascas laranjas. o sol despertava preguiçoso e tu sonhavas na minha cama. a fragrância despertou as emoções e os teus olhos semiabertos sorriram. o sumo derramado sobre os lençóis ficou a testemunhar o amor dos nossos corpos.

hoje continua o passeio indiferente e o odor intenso da casca de laranja dissolve-se no ar. porque tudo se extingue de nós, até o amor e o prazer.

sábado, agosto 12, 2006

ad eternum

desafio o novelo dos últimos meses e coro pelo que vivi, faminto de querer viver cada vez mais. a demente insatisfação que cultiva os meus dias fere-me de morte e sara as feridas do passado. a insanidade da alma já deixou de ser uma doença e regista agora o título de característica humana. essa vontade louca de se ter o que não se pode e amar o que não se deve. porque não nos cabe a nós visar o mundo, mas só e apenas flutuar por cima das águas, ao sabor dos ventos e das marés. um dia a praia há-de embater no casco e já seremos nós apenas corpo sem vida, sob a vigia das estrelas e o pranto das mulheres.
imagem: ["Espero-te!!", de Sérgio Rodrigo]

terça-feira, abril 18, 2006

a solidão é um canto do meu quarto que gosto de habitar. no escuro das noites mal dormidas costumo apertar-me no espaço que fica entre o branco sujo das paredes e ali respirar um pouco de calma e de silêncio. é como um abraço meigo a lembrar o regaço da minha mãe nas tardes soalheiras de Outono.

sabe bem ficar assim sozinho com os sentidos desligados do mundo, a usufruir dos sons e dos cheiros do nosso corpo enroscado sobre si mesmo. de vez em quando sinto uma lágrima desorientada que me percorre o rosto triste. e mesmo sem saber porquê gosto de a lamber e sentir o sal amargo na boca.

nem tudo na vida tem que ter uma explicação. e esta sede de solidão faz parte de mim como o sonho cor-de-rosa de te amar um dia. guardo o canto escuro na palma da mão e rebenta em mim esta vontade louca de chorar.
imagem: ["o frio da solidão", Ramon Pereira de Assis]

sábado, abril 01, 2006

outra vez

o mar azul-esverdeado espraiava-se à sua frente como um lençol de seda disposto a acolher os corpos que se amam, loucamente, num jogo de sedução entre a volúpia e o desejo. a areia escaldante lembrava o sol abrasador que, lá do alto, vigiava, através dos seus raios cor de fogo, os movimentos na praia. e o seu olhar demorado, triste, contrastava com a alegria das ondas que como crianças corriam para lá e para cá, continuamente, sem sinal de cansaço.

inesperadamente, ou talvez não, uma mão poisou-lhe delicadamente sobre o ombro como uma pena que, vagarosamente, se deixa embalar pela suave dança da brisa marítima até cair, como algodão sobre veludo, nas águas mansas de um lago. o seu ritmo cardíaco disparou e dentro de si rebentou um turbilhão de sentimentos.

ela não precisou desviar o olhar das águas mansas à sua frente; sabia que aquele toque representava o fim da ansiedade que lhe apertava o peito e um motivo mais que forte para se deixar de lágrimas e suspiros. o amor, tantas vezes reprimido até ali, tocava-lhe, despia-se perante ela, fazendo com que a sua pele se arrepiasse num extâse mudo, e deixava antever um pôr-do-sol muito mais doce.
imagem: ["Angelwings On The Water", de Miguel]

segunda-feira, março 27, 2006

dia mundial do teatro: a mensagem

UM RAIO DE ESPERANÇA por Víctor Hugo Rascón-Banda
Todos os dias deveriam ser Dias Mundiais do Teatro, porque nestes 20 séculos, a chama do teatro tem ardido constantemente nalgum canto do mundo.
Ao teatro, sempre se decretou a morte, sobretudo com o aparecimento do cinema, da televisão e, agora, dos meios digitais. A tecnologia invadiu os cenários e aniquilou a dimensão humana, tentou-se um teatro plástico, próximo da pintura em movimento, que substituiu a palavra. Houve obras sem palavras, ou sem luz ou sem actores, somente máquinas e bonecos numa instalação com múltiplos jogos de luzes. A tecnologia tentou converter o teatro em fogo de artifício ou em espectáculo de feira.
Hoje assistimos ao regresso do actor em frente do espectador. Hoje presenciamos o retorno da palavra ao palco. O teatro renunciou à comunicação massiva e reconheceu os seus próprios limites que lhe impõem a presença de dois seres frente a frente comunicando sentimentos, emoções, sonhos e esperanças. A arte cénica está a deixar de contar histórias para debater ideias.
O teatro comove, ilumina, incomoda, perturba, exalta, revela, provoca, transgride. É uma conversa partilhada com a sociedade. O teatro é a primeira das artes que se confronta com o nada, as sombras e o silêncio para que surjam a palavra, o movimento, as luzes e a vida.
O teatro é um ser vivo que se consome a si mesmo enquanto se produz, mas constantemente renasce das cinzas. É uma comunicação mágica na qual cada pessoa dá e recebe algo que a transforma.
O teatro reflecte a angústia existencial do Homem e revela a condição humana. Através do teatro, não falam os seus criadores, mas a sociedade do seu tempo.
O teatro tem inimigos visíveis, a ausência de educação artística na infância, que impede a sua descoberta e o seu usufruto; a pobreza que invade o mundo, afastando os espectadores, e a indiferença e o desprezo dos governos que deviam promovê-lo.
No teatro falavam os deuses e os homens, mas agora o homem fala para outros homens. Para isso o teatro tem de ser maior e melhor que a própria vida. O teatro é um acto de fé no valor de uma palavra sensata num mundo demente. É um acto de fé nos seres humanos que são responsáveis pelo seu destino.
É necessário viver o teatro para entender o que se passa, para transmitir a dor que está no ar, mas também para vislumbrar um raio de esperança no caos e pesadelo quotidianos.
Longa vida aos oficiantes do rito teatral! Viva o teatro!
Tradução: Instituto das Artes - Gabinete de Teatro e Gabinete de Comunicação

sexta-feira, março 17, 2006

à espera

à espera. ali, encostada ao ferro negro e frio, à espera do corpo que há-de chegar. sonhas os teus lábios agora brilhantes saciados de outros que, por agora e por entre as árvores, vêem assobiando ao sabor da tarde que passa devagar.

à espera. aí, na quietude dos dias, à espera que o azul do céu dê lugar ao manto negro das estrelas. e, por dentro, fervem as lâmpadas na ansiedade dessa hora em que, milagrosamente, o filamento de tungsténio, enrolado em forma de bobina para melhor concentrar o calor, se torna incandescente.

à espera. o candeeiro, que por agora não ilumina e apenas serve de encosto ao seu corpo de mulher, à espera do olhar do fotógrafo que, à luz do dia, viu sonhar as lâmpadas, ainda apagadas, na certeza seguinte de um abraço meigo.

vieram depois os beijos e à espera ficaram os dias.
imagem: [«lâmpadas que sonham», de Ricardo Manuel Santos]

sábado, março 11, 2006

crepúsculo

às vezes é difícil aceitar o que o corpo e a alma insistem em dizer. há sempre coisas e loisas a mais para lá do que devíamos riscar nas folhas em branco. há sempre ponteiros por perto e uma preguiça inconfessável por dentro.

a somar a tudo isto há ocasos. os momentos em que, tristes, por mais estúpido que possa ser, nos deparamos com o muro da morte. o muro intransponível dos nossos medos e dos nossos receios. o muro de nós.

este teatro roubou palavras aos dicionários, embalou cenas, escutou bandas sonoras, bateu e recebeu palmas. depois de em três meses, apenas três posts é altura de repensar os próximos espectáculos. o teatro não fecha, por isso, definitivamente as portas, mas encerra para ensaios.

até novas tintas se espalharem pelo ecrã e com elas nascer a cor em novos cenários, vou estar nos bastidores para conversar, de uma forma informal e mais pessoal. fora das tábuas do palco darei, prometo, conta das cenas em destaque, pontualmente, neste teatro das palavras.

um sorriso.
imagem: ["Alma Grande", peça de teatro pelo grupo "O Bando"]

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

smile

recorro frequentemente aos sorrisos para me sentir melhor. gosto de os apanhar nas dobras das ondas ou de os recolher, como tantas vezes, da beira da estrada, onde, mendigos, esperam uma boleia.

considero-os uma forma barata de me auto-medicar contra o avesso dos dias.

e se aos olhos dos velhos ditados populares serei rapaz de pouco siso, aos olhos do céu talvez seja asa livre de voar ou criança feliz.

porque a vida não permite compaixões avulsas, a loucura de que se veste a minha pele é um antídoto.

em nome de uma paixão, de um simples beijo, um afago ou apenas de um respirar mais demorado.

imagem: ["...she's got a secret smile...", Ricardo "TattooDevil" Costa]

sexta-feira, janeiro 27, 2006

saudade

“dói-me a pele.”
torno a ouvir as palavras que te ouvi naquela madrugada glaciar. doía-te a pele, enregelada, fria como a morte, morta que estava a chama que nos incendiou aos dois. os teus olhos já não eram os mesmos e até os sabores do pequeno-almoço da véspera se escondiam agora, receosos dos momentos bons que se faziam memória. o passado escrevia-se com verbos no presente e as chamadas de horas custavam agora a fazer, traídas pela distância exacta dos metros que nos separavam.
aquele vento gélido voltou hoje. as minhas mãos isentas de sangue tocaram as teclas do telemóvel ao som de um sms recebido. o teu nome estava lá, a dar-se à lembrança, a dar-se ao pensamento, como se, por milagre divino, a meteorologia controlasse os afectos. volto a pensar em ti. o teu sorriso meigo e doce; o teu rosto de porcelana, pintado à mão por delicadas mãos de artesão; a tua ingenuidade escondida; a tua maturidade fingida; tudo isso que me levou um dia a amar-te. e a não deixar esquecer.
o sms nada revela. vem branco como a história dos nossos dias. tenho frio. e sabes, dói-me a pele também.
imagem [olhares]

terça-feira, janeiro 03, 2006

diana


vinte e nove de novembro, pôr-do-sol.

há um sorriso que nasce, enquanto o sol de Inverno se esconde nas águas do oceano frio. dou por mim mais feliz que uma criança. canto por dentro, tremo por fora e não sei porquê sinto-me diferente. já és tio, dizem-me mesmo ali. padrinho, reforço eu.

parabéns, pais babados. felicidades, Diana.

quarta-feira, dezembro 28, 2005

neo-


com o final dos dias vem sempre a conferência das horas, dos minutos e dos segundos que, com este corpo e esta alma, fomos gastando por aí, em retiros e clareiras mais ou menos conhecidos, mais ou menos sentidos, mais ou menos vividos.

ao chegar a esta fase diria a grande maioria a célebre frase “é a vida”, popularizada pelas manhãs de sol ou de chuva, pelas tardes de calor e de frio, pelas noites de solidão e de prazer.

acaba-se a circunferência que delimita o número que se regista como ano e perde-se dentro dela a vida, os momentos e tudo aquilo que, sem se dar conta, foi vincando em nós os dias e as marcas, os beijos e os abraços, as lágrimas e os murros.

à beira de novo salto, reconheço a poesia das metáforas: gosto de cais diferentes, na ânsia da descoberta e da aventura que novas terras sabem oferecer, mas não consigo esquecer que, por força das amarras, é sempre o mesmo navio que navega, ano após ano, independentemente das marés, dos faróis e das estrelas-do-mar que, ao lado do casco, nos vão clareando o cabelo.

feliz ano novo.
imagem: ["salto", David Felix, 22.10.03]

terça-feira, novembro 22, 2005

no silêncio do olhar

angústia e revolta. à minha frente um buraco negro, fechado numa circunferência de metal, dita-me, sem piedade, um futuro que já não é este, mas outro. diferente, sempre diferente.

por dentro ferve uma revolta contida, azedasse-me o olhar e sinto picos de dor dentro da minha cabeça. não está nas minhas mãos [nestas mãos a quem devo a obra] moldar o rio que, enfurecido, se estende na minha direcção.

impotente, aqui fico. espero de pé, mas sou incapaz de não chorar. a frieza dos números são gelo dentro de mim. há um corpo e sangue quente aqui! mas parece que ninguém se lembra...

sinto-me marioneta anónima à espera da dor final, carimbada e assinada como na Idade Média. tento erguer a armadura da maturidade, mas, por mais que me esforce, são as lágrimas que me vencem.

foto: ["silêncios de um olhar", António Araújo, 13.07.05]

domingo, novembro 20, 2005

a biografia dos perfumes


leio a biografia da grande menina [“Mademoiselle Chanel”] nos lábios, na voz e nos gestos da grande senhora [Marília Pêra]. em palco o glamour e o talento reflectem-se nas palmas do público.

da vida [e do texto] uma conclusão: o importante não é amar para viver. antes viver para amar. tudo e todos.

o pano ainda está aberto, os projectores pintam as tábuas de azul e o céu da solidão que pinta o cenário de branco devolve-nos a imagem dos espelhos.

porque o teatro é sempre um mar por desbravar. mais ainda porque é domingo e lá fora chove, criando lagos perfeitos para as caravelas da nossa imaginação.

quinta-feira, novembro 17, 2005

...


a saber: as flores mesmo sem pétalas não deixam de ser flores. podem perder a arte, mas não deixam de alimentar as abelhas.
e há [acreditem, há!] pessoas assim: como flores e como abelhas.
foto: [Paulo Medeiros, 17.10.05]

segunda-feira, novembro 14, 2005

delicioso crime

deixei-me tentar. fui, vi e gostei.

excelentes desempenhos, pormenores de fotografia notáveis e uma realização (de Carlos Coelho da Silva) ao nível do que melhor se tem feito no país e no estrangeiro. assumidamente comercial, não deixa de abanar consciências e dar umas dentadas na hipocrisia eclesiástica. não deixa de ser corajosa esta conseguida eliminação dos tabus pela [sétima] arte.
o país [cultural] está de parabéns. por mais irónico que, socialmente, isto pareça ser.

quarta-feira, novembro 09, 2005

a alegoria do poeta

«Em breve há que atingir o vazio / da memória e nela persistir. Até que / livre das máscaras que nos corpos fui / venha, última, a surdez das vozes».
Orlando Neves

vinha escrito numa página de jornal, a preto e branco [como um verdadeiro jornal], sujando os dedos de carvão. não era destaque, mas, pelo menos, vinha noticiado: a morte das palavras. desconheciam-se as causas e os locais. apenas aquela certeza inaudita.

no dia seguinte, o jornal não se publicou. também não houve processo instrutório, julgamento ou acusação. o mundo calou-se. a voz perdeu o tom, as coisas perderam nome e os significados deixaram de fazer sentido. como num fado mudo, a canção do nada invadiu o céu, as poças de água e as chávenas do café.

suicidaram-se os poetas, choraram, desolados, os que sonhavam e os loucos deixaram de se sentir crianças. no silêncio dos dias seguintes o incógnito assassino viu-se, sem saber porquê, a morrer de solidão.

segunda-feira, novembro 07, 2005

como um vulcão

« Au cours de la nuit de dimanche à lundi, la 11ème de violences urbaines, 1.408 véhicules ont été incendiés et 395 personnes ont été interpellées en France, (…) le plus lourd depuis le 27 octobre. »
par Patricia Tourancheau, Libération: lundi 07 novembre 2005

são às centenas as feridas queimadas pelo fogo num desejo, absurdamente justo, de justiça. as televisões dão-nos as imagens, mas jamais nos darão os corações, a fome ou a discriminação. por fora do globo mostra-se, hoje, o que há muito queima por dentro. como um vulcão

sábado, novembro 05, 2005

ocaso

chego ao fim dos actos com um sorriso roubado ao orgulho.

sei que será talvez hoje o dia de mais um fim. o ocaso de uma história que, ao longo do último ano, viveu lado a lado com a minha, absorvendo o mesmo ar, cultivando as mesmas memórias, dando lugar às mesmas tristezas e alegrias.

hoje, de cima do palco, receberei, talvez, as últimas palmas devidas a este lugar e a esta gente. assino hoje [assinamos todos] o divórcio destas palavras que, semana após semana, se ouviram com a nossa voz e se soltaram por aí ao encontro das lágrimas que, sentidas, foram surgindo.

procuraremos novas cores, novas flores, novas auroras por aí. outras palavras se acharão ao nosso lado e os olhares e o corpo serão livres de novos amores. é a vida do teatro e dessas personagens inquietas que são os actores.

apagam-se os sons, fecham-se as luzes, o acto acabou. aos que nele souberam acreditar, viver, sorrir e chorar, deixo um coração feliz. roubo à plateia um último abraço fechado e dou por encerrado este céu que, esta noite, se fecha por cima de nós. definitivamente, não estou triste, mas não consigo evitar já uma lágrima de saudade.
foto: ["entre vocês me despeço...", Susana Ribeiro, 01.11.05]