sexta-feira, janeiro 27, 2006

saudade

“dói-me a pele.”
torno a ouvir as palavras que te ouvi naquela madrugada glaciar. doía-te a pele, enregelada, fria como a morte, morta que estava a chama que nos incendiou aos dois. os teus olhos já não eram os mesmos e até os sabores do pequeno-almoço da véspera se escondiam agora, receosos dos momentos bons que se faziam memória. o passado escrevia-se com verbos no presente e as chamadas de horas custavam agora a fazer, traídas pela distância exacta dos metros que nos separavam.
aquele vento gélido voltou hoje. as minhas mãos isentas de sangue tocaram as teclas do telemóvel ao som de um sms recebido. o teu nome estava lá, a dar-se à lembrança, a dar-se ao pensamento, como se, por milagre divino, a meteorologia controlasse os afectos. volto a pensar em ti. o teu sorriso meigo e doce; o teu rosto de porcelana, pintado à mão por delicadas mãos de artesão; a tua ingenuidade escondida; a tua maturidade fingida; tudo isso que me levou um dia a amar-te. e a não deixar esquecer.
o sms nada revela. vem branco como a história dos nossos dias. tenho frio. e sabes, dói-me a pele também.
imagem [olhares]

terça-feira, janeiro 03, 2006

diana


vinte e nove de novembro, pôr-do-sol.

há um sorriso que nasce, enquanto o sol de Inverno se esconde nas águas do oceano frio. dou por mim mais feliz que uma criança. canto por dentro, tremo por fora e não sei porquê sinto-me diferente. já és tio, dizem-me mesmo ali. padrinho, reforço eu.

parabéns, pais babados. felicidades, Diana.

quarta-feira, dezembro 28, 2005

neo-


com o final dos dias vem sempre a conferência das horas, dos minutos e dos segundos que, com este corpo e esta alma, fomos gastando por aí, em retiros e clareiras mais ou menos conhecidos, mais ou menos sentidos, mais ou menos vividos.

ao chegar a esta fase diria a grande maioria a célebre frase “é a vida”, popularizada pelas manhãs de sol ou de chuva, pelas tardes de calor e de frio, pelas noites de solidão e de prazer.

acaba-se a circunferência que delimita o número que se regista como ano e perde-se dentro dela a vida, os momentos e tudo aquilo que, sem se dar conta, foi vincando em nós os dias e as marcas, os beijos e os abraços, as lágrimas e os murros.

à beira de novo salto, reconheço a poesia das metáforas: gosto de cais diferentes, na ânsia da descoberta e da aventura que novas terras sabem oferecer, mas não consigo esquecer que, por força das amarras, é sempre o mesmo navio que navega, ano após ano, independentemente das marés, dos faróis e das estrelas-do-mar que, ao lado do casco, nos vão clareando o cabelo.

feliz ano novo.
imagem: ["salto", David Felix, 22.10.03]

terça-feira, novembro 22, 2005

no silêncio do olhar

angústia e revolta. à minha frente um buraco negro, fechado numa circunferência de metal, dita-me, sem piedade, um futuro que já não é este, mas outro. diferente, sempre diferente.

por dentro ferve uma revolta contida, azedasse-me o olhar e sinto picos de dor dentro da minha cabeça. não está nas minhas mãos [nestas mãos a quem devo a obra] moldar o rio que, enfurecido, se estende na minha direcção.

impotente, aqui fico. espero de pé, mas sou incapaz de não chorar. a frieza dos números são gelo dentro de mim. há um corpo e sangue quente aqui! mas parece que ninguém se lembra...

sinto-me marioneta anónima à espera da dor final, carimbada e assinada como na Idade Média. tento erguer a armadura da maturidade, mas, por mais que me esforce, são as lágrimas que me vencem.

foto: ["silêncios de um olhar", António Araújo, 13.07.05]

domingo, novembro 20, 2005

a biografia dos perfumes


leio a biografia da grande menina [“Mademoiselle Chanel”] nos lábios, na voz e nos gestos da grande senhora [Marília Pêra]. em palco o glamour e o talento reflectem-se nas palmas do público.

da vida [e do texto] uma conclusão: o importante não é amar para viver. antes viver para amar. tudo e todos.

o pano ainda está aberto, os projectores pintam as tábuas de azul e o céu da solidão que pinta o cenário de branco devolve-nos a imagem dos espelhos.

porque o teatro é sempre um mar por desbravar. mais ainda porque é domingo e lá fora chove, criando lagos perfeitos para as caravelas da nossa imaginação.

quinta-feira, novembro 17, 2005

...


a saber: as flores mesmo sem pétalas não deixam de ser flores. podem perder a arte, mas não deixam de alimentar as abelhas.
e há [acreditem, há!] pessoas assim: como flores e como abelhas.
foto: [Paulo Medeiros, 17.10.05]

segunda-feira, novembro 14, 2005

delicioso crime

deixei-me tentar. fui, vi e gostei.

excelentes desempenhos, pormenores de fotografia notáveis e uma realização (de Carlos Coelho da Silva) ao nível do que melhor se tem feito no país e no estrangeiro. assumidamente comercial, não deixa de abanar consciências e dar umas dentadas na hipocrisia eclesiástica. não deixa de ser corajosa esta conseguida eliminação dos tabus pela [sétima] arte.
o país [cultural] está de parabéns. por mais irónico que, socialmente, isto pareça ser.

quarta-feira, novembro 09, 2005

a alegoria do poeta

«Em breve há que atingir o vazio / da memória e nela persistir. Até que / livre das máscaras que nos corpos fui / venha, última, a surdez das vozes».
Orlando Neves

vinha escrito numa página de jornal, a preto e branco [como um verdadeiro jornal], sujando os dedos de carvão. não era destaque, mas, pelo menos, vinha noticiado: a morte das palavras. desconheciam-se as causas e os locais. apenas aquela certeza inaudita.

no dia seguinte, o jornal não se publicou. também não houve processo instrutório, julgamento ou acusação. o mundo calou-se. a voz perdeu o tom, as coisas perderam nome e os significados deixaram de fazer sentido. como num fado mudo, a canção do nada invadiu o céu, as poças de água e as chávenas do café.

suicidaram-se os poetas, choraram, desolados, os que sonhavam e os loucos deixaram de se sentir crianças. no silêncio dos dias seguintes o incógnito assassino viu-se, sem saber porquê, a morrer de solidão.

segunda-feira, novembro 07, 2005

como um vulcão

« Au cours de la nuit de dimanche à lundi, la 11ème de violences urbaines, 1.408 véhicules ont été incendiés et 395 personnes ont été interpellées en France, (…) le plus lourd depuis le 27 octobre. »
par Patricia Tourancheau, Libération: lundi 07 novembre 2005

são às centenas as feridas queimadas pelo fogo num desejo, absurdamente justo, de justiça. as televisões dão-nos as imagens, mas jamais nos darão os corações, a fome ou a discriminação. por fora do globo mostra-se, hoje, o que há muito queima por dentro. como um vulcão

sábado, novembro 05, 2005

ocaso

chego ao fim dos actos com um sorriso roubado ao orgulho.

sei que será talvez hoje o dia de mais um fim. o ocaso de uma história que, ao longo do último ano, viveu lado a lado com a minha, absorvendo o mesmo ar, cultivando as mesmas memórias, dando lugar às mesmas tristezas e alegrias.

hoje, de cima do palco, receberei, talvez, as últimas palmas devidas a este lugar e a esta gente. assino hoje [assinamos todos] o divórcio destas palavras que, semana após semana, se ouviram com a nossa voz e se soltaram por aí ao encontro das lágrimas que, sentidas, foram surgindo.

procuraremos novas cores, novas flores, novas auroras por aí. outras palavras se acharão ao nosso lado e os olhares e o corpo serão livres de novos amores. é a vida do teatro e dessas personagens inquietas que são os actores.

apagam-se os sons, fecham-se as luzes, o acto acabou. aos que nele souberam acreditar, viver, sorrir e chorar, deixo um coração feliz. roubo à plateia um último abraço fechado e dou por encerrado este céu que, esta noite, se fecha por cima de nós. definitivamente, não estou triste, mas não consigo evitar já uma lágrima de saudade.
foto: ["entre vocês me despeço...", Susana Ribeiro, 01.11.05]

quinta-feira, novembro 03, 2005

quando o céu também chora

gosto de ouvir os desabafos do tempo. quando ele, por entre as rajados do vento norte, traz até mim as recordações da criança que já fui. que brincava entre as árvores do quintal, indiferente à chuva e aos ralhetes da avó Maria.

até ao dia em que o céu chorou comigo. o meu balão vermelho rebentou contra o espinho de uma roseira que, todos os dias, me cumprimentava no caminho de terra batida, entre a minha casa e a quinta lá em cima. chorei como a criança que era.

o tempo ficou ainda mais triste. e a chuva, até ao fim da viagem, dançou no meu rosto com o sal da minha tristeza. criando em mim caminhos sem tempo e sem destino, que, triste, ainda hoje escuto, "numa dor que nunca cabe e faz transbordar os dias" [Mafalda Veiga].
foto: ["limite", simone, 16.08.05]

terça-feira, novembro 01, 2005

o dia de cada coisa

recebo da invernia as bofetadas do vento e as carícias agrestes das ondas do mar de quando em vez. vou, por ali, como relógio decidido, rebuscando nos passos as incertezas, vivas pela dor, que a alma teima em alojar. gosto de pensar que o mar poderá ser um dia o lar das minhas feridas. por isso vou.

vejo à porta do cemitério uma invulgar agitação. amontoam-se os carros e as pessoas, de flores e guarda-chuva nas mãos. ah, pois, hoje é dia de finados! o dia em que todos nos lembramos de “visitar” os entes queridos que, pela lei da vida ou contra ela, já se finaram.

estranho, no mínimo. há um dia para cada coisa importante na nossa vida: dia da mulher, do pai, da mãe ou até dos avós; dia dos direitos do homem, da luta contra o cancro; dia da árvore, da criança, de Portugal e de todos os santos. dias que aproveitamos para, a reboque da comunicação social, reflectir, comprar um presente ou levar a efeito uma leitura mais exaustiva sobre o assunto em destaque. como se, para além dessas datas, nos nossos dias tão ocupados, as pessoas que amamos e as coisas importantes da vida não tivessem a importância que merecem.

ao escutar as gaivotas preocupadas – em terra que o mar está agitado –, procuro no calendário, desenhado na areia, o dia do riso: o dia em que, talvez, tivéssemos coragem de rir de nós próprios. e assim fui e voltarei a ir todos os dias, porque sem o mar desta cidade a minha vida não teria a mesma cor.
foto: ["o nosso mar...", Cristina do Vale e Vasconcelos, 21. 10.05]

domingo, outubro 30, 2005

since Outubro 30

“O pano já subiu. Agora sou só eu e o público. Eu e vocês. Neste teatro das palavras.”

há um ano o teatro abria assim. hoje, sem mais, assim há-de continuar. o que aqui se disse, o que aqui se escreveu é já memória, arquivo morto. a crítica há-de dizer-se ou escrever-se um dia. por agora, assumem-se os erros, limpam-se os fatos, aprumam-se os adereços, relembram-se as deixas e, como há um ano atrás, sonha-se.

a festa faz-se, de novo, logo à noite, quando, uma vez mais, se voltarem a abrir as cortinas. quando, por entre os rompimentos, gente, de corpo e alma, se entrega, de novo, ao momento e à magia do palco. construindo infinitos sonhos em pequenos espaços de tábuas, entre um cenário e um projector. entre uma voz e um suspiro breve.

palmas, queríamos palmas e as palmas tivemos. por elas, obrigado. por nós, as palmas vai continuar a dançar nos esconderijos deste teatro. sempre com emoção.

sexta-feira, outubro 28, 2005

escada


estava ali. tinha atrás de si mais de duas centena de degraus e à sua frente pouco mais de meia centena. estava, por assim dizer, numa posição confortável. naquele patamar almofadado, os ecrãs LCD transmitiam-lhe memórias vividas desde o início da subida: a determinação, os obstáculos, as raivas, os nervos, as angústias, os sorrisos, as palmas, as palavras, os panos que se abriram e fecharam, semana após semana, defronte às plateias.

uma subida gloriosa, dirão alguns. podia continuar a subida, vir a descobrir o que fica para lá do último degrau – o “degrau dourado” –, saber na pele o sonho de tantos.

naquele momento, tomou uma decisão: iria voltar a descer. “Estás louco?”, perguntaram-lhe os companheiros da viagem. “Estarei? Lá em baixo posso, de novo, voltar a sonhar com a subida. Daqui para a frente é sempre igual.”

na verdade, o que ele tinha era medo de estar por cima das nuvens; ele que tanto gostava de chuva.

terça-feira, outubro 25, 2005

a conspiração

depois d'"O Código Da Vinci" e de "Anjos e Demónios" o génio de Dan Brown está de regresso. "Conspiração" é título do novo livro que junta "um meteorito, a NASA, o Ártico, e o presidente dos EUA".

pelo que me toca, depois do embalo que foi o "Código" e o fascínio que me provocou "Anjos e Demónios" [que considero genialmente bem escrito], já dei mais um pequeno arrombo no orçamento para trazer esta "conspiração" para a biblioteca cá de casa.

para já, quem em nada se pode queixar é a Bertrand Editora que descobriu em Dan Brown a sua galinha dos ovos de ouro numa relação que, segundo se consta, está para durar.

quanto a mim, vamos ver quanto tempo resisto à tentação daquelas páginas... e se a elevada expectativa encontra reflexo na realidade.

segunda-feira, outubro 24, 2005

o estado da nação e a máquina do tempo

cheguei a uma triste conclusão: o país está mesmo a andar para trás [dirão alguns: mais vale tarde do que nunca].
mas, atentando bem, a frase para além de verdadeira num sentido metafórico, não deixa de perder significado mesmo quando levada à letra. reparem: estamos a andar tão para trás que até os políticos de há dez anos estão todos, de novo, na ribalta.

alguém se importa de pôr a máquina do tempo a trabalhar ao contrário?

e, assim sendo, não sei se me penitencio ainda mais ou se me levanto e rio.

levanta-te e ri

o popular programa de humor da sic está, esta noite e pela terceira vez, de volta ao grande auditório do cae. tinha tudo para lá estar hoje, outra vez na primeira fila. afinal, rir ainda é um bom remédio e, de facto, os programas ao vivo são bem mais interessantes do que na televisão.
mas, confesso-vos, hoje não me apetece e, assim sendo, não vou e ponto final

penitência

a nossa vida nem sempre é aquilo que queremos, mas é com ela, com tudo o que tem de bom e de mau, que temos de viver todos os dias.

sou pois acusado, legitimamente diga-se, por alguns de não me dedicar o suficiente a este palco, de não actualizar com a frequência que se exige as palavras neste teatro e, sendo esta a mais pura e cristalina das verdades, assumo a totalidade da culpa.

o processo e a sentença obrigam-me agora a reflexão séria e a atitude firme. veremos do que sou capaz.

um ano à beira-mar

tudo passa veloz. os locais, as pessoas, as emoções, cada manhã e cada fim de tarde, conjugações de verbos num tempo sempre passado e já vivido. e ficam para nós, em cada um de nós, as memórias na alma e na pele [como cantaria a Mafalda].

a vela que
à beira-mar se levantou conta já com história, construída nas idiossincracias de tantos e tantos marinheiros, em tantas e tantas ondas, numa viagem sempre atenta, verdadeira e pessoal.

a praxe obriga-me a dar os parabéns ao zé luís e, num momento seguinte, o desejo de felicidades no seu novo trabalho, lá
do alto do castelo. são frases feitas, pois são: o verdadeiro significado delas mora no olhar, no abraço amigo.

o teatro, por seu turno, agradece-lhe as palmas (e as palmadas). e pede-lhe que continue, porque, como já se disse, tudo passa, mas nada deixa de ficar gravado seja lá onde for.

segunda-feira, outubro 17, 2005

gotas de sal

quantas mais vezes tentava esboçar um sorriso, mais o teu olhar se confundia com o mar. e nesses instantes entre a realidade e o sonho, quando sei estar perto do fim o céu, nunca conseguirei tirar do dicionário [ou da alma] palavras que cheguem [ou que falem somente].

impotente. o teu sofrimento alimenta a minha inadaptação à dor, aos teus olhos manchados de angústia, ao teu rosto coberto de sal. não fosse a chuva miudinha que, por agora, me lembra o sangue quente que ainda corre e, neste momento, seria uma bola de fogo, de raiva, quem sabe o furacão agreste que [felizmente] nunca senti, rumo à explosão final: um rebentamento de mim.

e por favor – eu sei que consegues – não me fales do sol que vai voltar a nascer. mostra-me antes o brilho dos teus olhos por entre as gotas que te vincam a face. e deixa-me sentir nos teus lábios o sabor da vida, a certeza de que, juntos, duas cerejas inseparáveis, beberemos, já esta noite, essas lágrimas como um cocktail doce, suave e sem álcool.

foto: ["ashes everywhere", sweetcharade, 9.10.05]