sexta-feira, junho 10, 2005

fragrância azul

submergir. do azul forte, escuro, denso até ao limite das águas. até o sol nos banhar a face, até a pele ganhar a cor e a forma, o corpo o peso e a medida. até nos sentirmos respirar, asas livres sem pressão. sem medo.

a fragrância do azul sabe a mar. tem sal e movimento, tem estrelas, pedras, tem algas e mais sal. dizem que sempre tem sol. dizem que sempre tem força. mas eu acredito que o azul [o mar] também sabe chorar. e tem lágrimas que são gotas, que são nossas, que são minhas, que não são de ninguém.

submergir dos teus vestidos azuis enrolados em mim, presos ao sabor do meu corpo. decifrar a textura do vento, das areias que incomodam até tu chegares, da pele que usas com cheiro de amor. encontrar os teus lábios rubros envergonhados do teu olhar azul.

como o céu e o mar se pintam, nos mergulhos que damos abraçados. e tu, farol, que nos olhas enamorado.

pudera os dias viver só de fragrâncias azuis. como o de hoje.

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sexta-feira, maio 20, 2005

qualquer coisa de bom

são tantas as coisas boas que o Mundo tem para nos oferecer. são tantas.

para ler. “Qualquer coisa de bom”, é bom de se ler. é uma sobremesa sonhada, daquelas que raramente nos vêm à mesa, mas que nunca nos cansamos de imaginar. até ao dia em que, sonho ou não, conseguimos dosear as quantidades certas de moca, chocolate e baunilha e nos servimos a nós próprios de um doce beijo.

para ver e ouvir. fazedores de ambientes, criadores de viagens: marinheiros, aventureiros, sempre os primeiros, em terra ou no mar. recriam auroras, os sons do mar, os pássaros, o vento, entre sinfonias inéditas e clássicas, num abraço caloroso à música, num abraço apertado ao fascínio. o som liso e doce, o som majestoso e forte, de uma centena de instrumentos afinados a uma só voz. a banda da armada, em paz e em terra, num concerto absolutamente encantador.

para sentir. o doce salgado do mar, o prazer dos teus lábios.
porque o Mundo tem muitas coisas belas para nos oferecer. basta estar atento.
das ondas e do mar

quinta-feira, maio 12, 2005

à espera

com a certeza das horas que pintam rugas, vincam gestos e acenam despedidas, fico com a sensação estranha de que o Mundo é incapaz de ser feliz.

nos arvoredos da serra, por entre os ziguezagueados caminhos de asfalto comido, encontro pequenos pedaços de madeira caídos, troncos esquecidos, cavacas sem cavaco e folhas tristes. o chão brilha de vez em quando ao sabor do vento, sorri quando vê o sol.

e na minha paz interior, reflectida nas telas de um Homem capaz de conquistar-se a si próprio, de azul celeste, de vermelho fogo, de cor e de sal, há um infinito medo da próxima manhã. acreditem, sinto medo das falésias, do que acaba e se afunda no mar. medo do sol não me sorrir como hoje.

porque sei que ninguém é feliz eternamente. porque há sempre manhãs doces, amargas, há sempre emoções, dores, beijos, dias, horas. porque me ensinaram o significado de carpe diem, mas não me disseram que viver pode ser tão humanamente mágico.

terça-feira, maio 03, 2005

acreditar

há sonhos que não passam dos primeiros raios de sol. finam-se nas manhãs, perdidos nas loucuras da noite, entre um suspiro e uma estrela mais brilhante. os sonhos não gostam de dúvidas.

senti naquela hora que as minhas lágrimas sabem a sal. pude ver o meu rosto feliz reflectido nas palmas e nos sorrisos da plateia. nos abraços que se seguiram senti o reconhecimento e o cansaço, pela primeira vez, deu lugar à paz.

como é bom ver as luzes que se apagam depois das emoções vividas, depois dos sons nos trazerem de novo ao pequeno teatro. a verdade é que as pancadas de Molière ouviram-se mesmo. o texto batido ao longo dos dias vestiu-se de formas, ganhou voz e soube até questionar a verdade. porque é disso que se trata: uma verdade que dói.

se fosse fadista hoje cantaria. valeu a pena. pois é, vale sempre. porque há deles - os sonhos - que se realizam. basta não desistir e acreditar.

e é isto que, sem dúvidas como nos sonhos, faremos sempre que subirmos ao palco. até que a alma nos doa.

num palco escondido por aí. teatro de amadores, mas só porque quem faz também ama e sofre.

quarta-feira, abril 20, 2005

cansaço

"Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem
"
Sophia de Mello Breyner

nada mais.
só o cansaço. e a certeza de que estás aí. ao meu lado.
tocando-me.

quinta-feira, abril 14, 2005

caminho insofismável

não é nada fácil andar atrás das coisas que nos fogem pelos dedos. como as ondas do mar, o vento, os teus cabelos e as minhas palpitações, o teu sorriso ou os nossos suspiros.

também não é nada fácil ser refém das palavras que roubaste ao mundo, aos dicionários ou à minha boca. como as que ouço pelo ar, como as que dançam, as que choram ou as que fogem da razão.

fácil não é escolher temas para a banda sonora do teu acordar. como os que sonho durante a noite, os que roubo à madrugada, os que canto ao sol ou componho ao luar.

amar-te também não é fácil. porque fáceis são as canções que se dançam, mas não se sentem, que se conhecem, mas que não se guardam.

mas mais difícil ainda era viver sem ti. sem fazer das letras uma frase feita.
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sábado, abril 02, 2005

Palma(s), Jorge

ou o alucinante concerto de um homem alucinado.

o Jorge esteve e não esteve lá. talvez o Palma (ou as palmas) por lá andassem. meio confusas, absortas, entre o real e o imaginário. a verdade é que o concerto aconteceu e será, de facto, muito difícil de esquecer... uma verdadeira alucinação!

ao som do “Norte”, com algumas incursões por histórias mais antigas (e tão ao nosso gosto), o que obtivemos desde o início foi, sem dúvida, um simplesmente “deixa-me rir”... que grande pedrada! mas também o que esperaria o público de alguém que, ao pequeno-almoço, degusta, nada mais, nada menos, que dois ovos estrelados e uma super-bock?

cheguei ainda a questionar a veracidade do palco: têm a certeza de que tudo isto não é encenado? pelos vistos não era, mesmo apesar de, como lembrou o artista, ser dia das mentiras. e, no fim, o que ficou, para além do excelente som na sala e dos bem conseguidos efeitos visuais, foi um Centro de Artes Espectáculos (CAE) “estupidamente” bem disposto.

a questão que fica é: teria o concerto sido tão memorável se Jorge Palma estivesse sóbrio? sinceramente acho que não. o essencial, a música, estava lá. o resto são coisas “que não interessam nada”. where’s next?

quarta-feira, março 30, 2005

sentidos que voam

sabes, sinto-me pássaro. não sei o tom das palavras que me suportam a alma. apenas lhes sinto o tacto e o cheiro e tudo me faz lembrar de ti. ando num voo rasante sobre as ondas...

... constantemente em desequilíbrio e raros são os momentos em que te ouço uma frase completa. há muito que não leio jornais e até o mar se silenciou. caio tantas vezes e levanto-me outras tantas e acabo sempre a chorar e também a rir como uma criança que brinca na rua.

disseste: ohhh amor!... não fosse eu ficar toda vermelha e verias nos meus olhos a resposta à tua pergunta. sorri. não por estares de facto vermelha que nem um tomate, mas porque sabia mesmo a resposta.

sim, essa mesmo: aquela que me trouxe até aqui e me deixou neste estado. um estado pouco católico, diga-se a bem da verdade, até porque nem baptizado deve ter sido. alguém sabe que nome dar ao que sinto?

pois, amor, eu sei: isto é o que dá andar nas nuvens.

(voar)

domingo, março 27, 2005

teatro

Mensagem do Dia Mundial do Teatro

Socorro!
Teatro, vem em meu socorro
Durmo. Acorda-me.
Estou perdido no escuro, guia-me, pelo menos em direcção a uma vela
Estou preguiçosa, envergonha-me
Estou cansado, ergue-me
Estou indiferente, bate-me
Fico indiferente, parte-me a cara
Tenho medo, dá-me coragem
Sou ignorante, educa-me
Sou monstruosa, humaniza-me
Sou pretensioso, mata-me de riso
Sou cínica, confunde-me
Sou imbecil, transforma-me
Sou má, castiga-me
Sou dominante e cruel, combate-me
Sou pedante, troça de mim
Sou vulgar, ensina-me
Sou muda, solta a minha língua
Já não sonho, chama-me cobarde ou imbecil
Esqueci-me, lança sobre mim a Memória
Sinto-me velha e instalada, faz saltar a infância
Estou pesado, dá-me a Música
Estou triste, vai buscar a Alegria
Estou surda, em tempestade faz uivar a Dor
Estou agitado, faz subir a Sensatez
Estou fraca, acende a Amizade
Estou cega, convoca todas as luzes
Estou submetida à fealdade, manda entrar a Beleza conquistadora
Fui recrutada pelo ódio, concede-me todas as forças do Amor.

Ariane Mnouchkine, Encenadora
Tradução de Carmen Santos (enviada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Espectáculos), recebida, via e-mail, através do portal ANTA

não resisti. porque hoje é também o meu dia. se bem que o teatro não é de um dia, mas de todos os dias. não resisti. e, como não podia deixar de ser, esta noite vou ao teatro.

sexta-feira, março 25, 2005

velhos

passam os dias e sentes que és um perdedor
já não consegues saber o que tem ou não valor
o teu caminho parece estar mesmo a chegar ao fim
pra dares lugar a outro no teu banco do jardim

mas a alma não tem idade. a alma não comemora aniversários. a alma vive os dias, sente as emoções, chora as horas, sempre da mesma forma.

no ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem”, escreve-nos Gabriel García Márquez , no seu «Memória das minhas putas tristes». li o livro numa tarde: um elogio à vida, ao amor. o colorido de uma vida, carregada de memórias, enrugada de boémia, rendida aos prazeres do amor. quente, doce, de chocolate. sem idade. sem sexo. só amor.

e não resisti, uma vez mais, à voz da Mafalda Veiga:

o olhar triste e cansado procurando alguém
e a gente passa ao seu lado a olhá-lo com desdém
sabes eu acho que todos fogem de ti
pra não ver a imagem da solidão que irão viver
quando forem como tu
um velho sentado num jardim

velhos são os trapos. e os trapos não sofrem. os trapos não amam.
Mafalda Veiga, Velho,
sentado num banco do jardim

terça-feira, março 22, 2005

casamentos

não imaginava o casamento das acácias com as mesas de madeira de carvalho e os seus bancos corridos, em plena serra. sempre achei que as acácias não deviam ser tocadas, invadidas. tinha até medo de que os olhares pudessem de alguma forma, de qualquer forma, intimidar as pobres acácias, levando-as a assumir uma atitude envergonhada – descolorida, entenda-se.

e os casamentos entre a laranja e o leite provocam dores de barriga. foi o que eu sempre ouvi dizer e o que me levou, até aos dias de hoje, a enjeitar tais degustações por mais vontade que tenha. é certo que até pode ser um manjar dos deuses, mas eu sempre confiei muito na sabedoria popular. não vá o Diabo, ou outro ente qualquer, tecê-las.

depois há os casamentos obrigatórios: cor-de-rosa para as meninas, azul para os meninos. curiosamente, sempre gostei muito do azul. do mar, do céu (e nunca do FC Porto). provavelmente, fruto de uma aprendizagem guiada à rica pelos padrões sociais das cores. felizmente, há hoje em dia a moda das meias às riscas, tipo arco-íris. e os meninos e as meninas podem, finalmente, ser de todas as cores.

a terminar, temos os casamentos humanos. o matrimónio não é mais do que um contrato social que dá direitos e cria deveres, disse-mo a minha professora de Direito. Lembro-me de, naquele momento, me ter arrepiado e mentalmente a ter condenado, muito mais por ser uma mulher a dizê-lo. onde estava a sensibilidade feminina para a causa? hoje dou a mão à palmatória: quem sabe, sabe.

e de casamentos estamos conversados.

sexta-feira, março 18, 2005

terapia do corpo e da mente

esvaziei-me das dores que trazia penduradas ao coração. libertei-as ao vento e gritei as palavras que ouvira dos tempos da revolução francesa: "liberté, égalité, fraternité". o teu sorriso terno apenas me disse aquilo que eu já sabia. nem mais uma palavra: estou louco.

divorciei-me também das palavras que o vento trazia de outras bocas. de línguas ásperas, em nada doces como a tua. fechei-lhes as janelas da minha porta e baptizei a minha vivenda: «vivenda amor». piroso. pois é. deixa lá.

roubei depois ao tempo os ponteiros do relógio e escondi-os debaixo da minha cama. desde esse dia tem-se escondido das rotinas habituais. dos textos e das palavras. eram 2h15, a hora em que te senti no desejo da paixão e ele - o relógio - nunca mais andou.

entreguei-me, por fim, definitivamente nas tuas mãos. sei que agora nada é firme. o apoio do meu corpo resume-se às pétalas que desenham o teu rosto de flor, mas o embalo é meigo. cresci também. perdi o chão, mas, ri-te agora, ganhei o céu.

a terapia diz que a loucura é saudável se a mente souber sorrir dela. poeta eu? não. apenas num estado de felicidade pura. conscientemente. estou louco, pronto.

sábado, fevereiro 26, 2005

felicidade efémera

a felicidade acontece tão pouco / que quando nos bate à porta alegramo-nos / deixamos que nos invada o corpo / e feito pássaros voamos, voamos

para lá do céu azul e maior / vamos sem sermos nós, despidos / das roupas do mundo pior / que nos trazem atados, vestidos

gritamos ao vento que a vida é sol / na praia deitamos a mão ao mar / enroscamo-nos na luz do farol

pescamos na escuridão o luar / e trazemos a felicidade num anzol / até que a manhã nos venha acordar

>> RS/10-06-2003 >>Foto "Segredos da Lua"

terça-feira, fevereiro 22, 2005

acordar

ainda não era manhã. ou pelo menos ainda não havia luz suficiente para poder moldar o brilho do dia ao teu rosto. a tua pele na minha pele. o meu sono perdido nos teus cabelos.

bom dia. sim, vai ser um bom dia. um magnífico dia. até dispenso o pequeno almoço de sumo de laranja natural, croissant misto, doce de marmelada e chocolate. dispenso (repudio até) o relógio despertador, importado de um oriente remoto, que insiste em correr os números e com eles o tempo. e fico aqui. porque aqui está-se bem.

há muito que a tua voz deixou de me falar. apenas distingo as melodias doces que os teus lábios sabem tocar. e as canções são já um mundo de fantasia. dizes-me que "a culpa não é do sol se o meu corpo se queimar". respondo-te que tens razão: "a culpa é da vontade que eu tenho de te abraçar".

não somos nós, somos humanos. e os humanos têm vidas. dispensamo-las. e connosco hão-de ficar os sonhos, hão-de morrer os sonhos, e a vontade de que, onde quer que estejamos, as manhãs sejam de geleia.

e que as manhãs sejam de geleia, sejam de sol, sejam de chuva, sejam de mar, sejam de terra. mas que sejam contigo nos meus braços. porque adormecer assim, amanhecer assim, até parece mentira. tudo mentira até os teus beijos terem sabor de verdade
.

o sono dorme-se aqui. "a culpa é da vontade", Humanos

sábado, fevereiro 12, 2005

antecéu

gosto quando me roubas o corpo e de oferta te dou a alma. e adoro quando passamos as madrugadas a dançar ao som das músicas que compus para ti. e dos beijos que me dás às escondidas da luz.

lá fora, as estrelas tremem de frio e por aqui tu fazes de sol. adoro sentir-e a personagem e arder a teu lado. neste palco de rosas.

uma limonada, um copo de água, um bombom e o jornal diário. a tua foto, o teclado, os documentos para informar e as horas que voam, sem asas, até aos teus lábios. cena após cena, dia após dia.

quando chega a praia e te dás ao mar fazes de onda. e eu espero ansioso na praia até que me toques a pele, para depois me banhar em ti.

neste acto final, o tecto das nossas vidas fez-se de céu. e eu, marioneta do teu amor, adoro pular tocando com os cabelos nas nuvens, sem medo de cair.
porque sei que o teu colo será sempre um bom refúgio.
o céu mora aqui

domingo, fevereiro 06, 2005

sim, eu sei

hoje o sol pôs-se nas minhas mãos. e não sei porquê sinto-me a arder por dentro. desejo este mar que rebenta dentro de mim. e desejo que os dias sejam nas noites o doce dos teus beijos.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

aviso de flores

é preciso avisar toda a gente
dar notícia informar prevenir
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir
é preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada detenha
é preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta
é preciso avisar toda a gente
transmitindo este morse de dores
é preciso imperioso e urgente
mais flores mais flores mais flores
João Apolinário, in "Morse de Sangue"
flores apanhadas aqui

porque no dia em que começa a campanha para as legislativas de 20 de fevereiro é preciso avisar toda a gente. mais flores mais flores mais flores.

terça-feira, fevereiro 01, 2005

desejo

esta noite vou comemorar o amor
dançar nas ruas como um louco

vou trincar pautas de música
partir pedras e plantar rosas

vou chorar as tuas partidas
incendiar fogueiras de paixão

vou beber dos teus beijos
e dormir do teu sono

vou calar os meus desejos
fazer do amor o meu dono

vou dar corda ao coração
plantar flores no teu peito

dizer sim ao teu silêncio
cobrir de pétalas o chão

vou amar o que não aceito
sonhar-me nos teus lábios

esta noite vou beber licor
e saciar-me do teu corpo

sexta-feira, janeiro 28, 2005

rosto partido

o céu azul também se pinta e chora. quando assim tem de ser.

não aceito escrever para a morada que me indicas. não posso aceitar. a prisão em que habitas não é lugar para ti. vês o sol aos quadradinhos, não é? vês a mesma porta que se abre e fecha todos os dias, não é assim? e desesperas. mas porque não fazes um esforço e sais daí?

acumulas em ti a angústia dos dias. não vives com medo. não aceitas a minha mão. nem a de ninguém. e vejo-te sofrer presa a ti. até quando vai a tua pele suportar as lágrimas que teimas em guardar?

um dia o teu rosto há-de partir. e nessa altura pode ser que já não reste ninguém para apanhar os cacos. é assim tão difícil chorar?

mais um olhar

domingo, janeiro 23, 2005

vermelho

estás a ver o céu vermelho? estou. é a cor da paixão, sabias? sim. sim? e não dizes mais nada só isso!? o vermelho também é a cor do sangue.

por cima fica todo o teu peso. esmagas-me. ocupas-me o espaço. dás-me as asas, mas tiras-me o céu. como queres que voe?

quando vais, o coração dói. dilata de tal maneira que o sinto grande demais para o meu peito franzino. e por cada passo que dás, sempre para mais longe, o coração cresce mais, sempre mais... sim, talvez por isso haja em tudo isto muito vermelho... talvez por isso o teu rosto se dilua nas minhas lágrimas.

como queres que me levante se continuas sentada nas minhas costas? como queres que te encare se me apertas contra o solo? como que queres que grite do cimo da montanha amo-te, se quando a tento subir me pisas de novo?

o sangue é vida. a paixão também. e o que sinto por ti é de que cor?

domingo, janeiro 16, 2005

almas que dançam



o equilíbrio faz dançar a alma. leva-a para lá e para cá, ao sabor do vento, da gente que passa. tenta manter-se de pé. agarrar bandeiras, erguer árvores, lançar foguetes, mas a chuva cai. as lágrimas são demais para um rosto tão pequeno. e dói muito. porque as flores também perderam a cor.

a doença tem nome. cancro. ponto final. é preciso encarar a palavra. como a doença nos encara o corpo numa luta diária. desigual. injusta.

conheci, antes dos testes e exames médicos, a força e a determinação. vi, depois deles, lágrimas nos rostos dos que mais a amavam. e, juro, julguei ter perdido para sempre o seu sorriso.

mas não. porque descobri que a força vive na alma. descobri que os pés só deixam de dançar quando a alma desiste de viver. e ela encara, com a naturalidade dos dias solarengos, o olhar piedoso dos que a observam. e responde, com o desprezo devido às conotações, que a quimioterapia não lhe permite apanhar frio.

tudo tão simples. a doença, a cura. simples demais para tantos de nós. grandioso demais para ela. e reconheço-me na minha pequenez. na nossa pequenez. tão mais infelizes.

não lhe vendo a minha pena, porque não a merece. ofereço-lhe sim a minha mais profunda admiração, na certeza de que, em cada manhã, haverá sempre mais uma dança.

porque os dias não morrem hoje...
foto de Áurea Rico

o leque de lady windermere

as cortinas abriram na escuridão.

entrei na sociedade dos finais do século XIX e deslumbrei-me pelos vestidos delas e pelos fatos deles. a classe é alta, fala-se de duques, condessas e lordes, numa inglaterra fútil e hipócrita.

admiro as expressões carregadas, a ligeireza dos movimentos, a voz sonante. e das falas de Oscar Wilde, o autor, retiro dois momentos preciosos.

"entre um homem e uma mulher não existe amizade". ó meu caro Oscar, felizmente, não vive você nos nossos dias, pois seria obrigado a chamar-lhe, o que seria de uma deselegância actroz, mentiroso. nem mais. digo-lho eu, rapaz novo, mas muito amigo... das suas amigas.

"as palavras são a segunda tragédia. as palavras são de uma crueldade..." ó meu caro Oscar, infelizmente, não vive você nos nossos dias, pois seria obrigado a manifestar-lhe todo o meu apoio. não fossem essas malvadas a desgraça dos nossos dias. as rainhas da má-língua.

e no fim, de sorriso largo, bato palmas. muitas palmas. a cortina reabre novamente para recerbermos os actores em festa. sim, estão de parabéns.

já na saída, retribuo cumprimentos, respiro fundo. um leque. falsidades. hipocrisias. uma mãe infeliz. um marido louco de paixão. a inocência dos vinte e um anos. conselhos e futilidades. a vingança do amor. a vida.

e tudo isto é teatro.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

noites interrompidas

era madrugada. na noite o silêncio e nos meus sonhos a tua música. num ápice, os teus acordes são interrompidos por um grito agudo, aflito. e, em cadência, repete-se uma vez mais e outra e ainda outra.

o barulho apressado do quarto ao lado faz-me acordar. as sirenes continuam a tocar. sinto o respirar pesado da minha mãe e a agilidade do meu pai. imagino: primeiro as calças, depois a camisa, o boné, as meias meio calçadas, botas na mão, a porta da rua que se abre e o barulho monstro de cada passo escada abaixo.

levanto-me. a minha mãe revela a preocupação de tantas outras noites. pergunto: onde é que é? não sei, pediram reforços. colados ao vidros, ainda vimos o carro rua acima, piscando de cada um dos seus cantos, numa velocidade cega. num sussurro, ouço a voz da minha mãe: que Deus o leve em bem.

de novo, sob os lençóis, já não ouço a música que tocava. as sirenes calaram-se, mas ficou um zumbido grave nos meus ouvidos. o coração bate. rezo. rezo sempre pelo meu pai. rezo pelos colegas dele. rezo por aqueles a quem caiu a desgraça e não ouvem já o silêncio da noite.

o hábito dos anos soube domesticar a excitação dos momentos. quando acordo, já o sol vai alto, reconheço sempre no rosto de minha mãe mais uma noite roubada ao sono. o pai? rezo pela resposta. pode ser um simples “já está a dormir” ou um preocupado “não sei, ainda não voltou”.

pai, onde foi o fogo? e ele lá relata os acontecimentos, os meios usados, os perigos. tem na voz a coragem e no olhar o cansaço dos anos atrás das chamas. invejo-o. a ele e aos que, diariamente, dão a vida para salvar vidas. tantos por esse país fora. invariavelmente, esquecidos. invariavelmente, arredados dos sonhos. invariavelmente, afastados das noites em que acordo para o ver sair.

ser bombeiro é a tua glória e o meu orgulho. obrigado, pai. acredita que as noites acordadas são sempre a recompensa das que passaste acordado por mim. lembras-te, pai? faz hoje anos que a tua luta por mim começou. o dia em que deixaste as sirenes tocar e foste a correr para a maternidade ver o teu bébé.
a verdade, pai, é que os parabéns que hoje recebi não são meus, são teus. por tudo o que és.
foto de alessandro maucci

quarta-feira, janeiro 12, 2005

ensaio primeiro

a cortina permacene fechada.

gosto dos guiões. riscados, rabuscados, anotados, cheios de notas e de músicas. gosto do ar aparvalhado de cada um dos actores diante da sua nova vida. gosto de os ver sugar em cada folha uma nova emoção, uma lágrima, um sorriso ou uma gargalhada. gosto dos projectos, das maquetes, dos cenários que se sonham, ainda no papel. gosto dos figurinos. a cores e mais ainda a preto e branco. gosto.

gosto de distribuir vidas. saber que, nos próximos meses, o Bruno, o Paulo, a Teresa, a Susana, a Guida, o Alfredo, a Andreia e o Vítor vão habitar uma nova aldeia, num novo tempo. o tempo e o espaço que são ainda hoje e só palavras. palavras minhas.

quiseram por-me à prova. desta és tu que vais connosco. se o mundo é teu, as nossas vidas (das personagens, claro) tuas são. aceitei. em troca dar-me-ão eles as emoções. a mim e ao público.

gosto de estar feliz. gosto do apoio dos actores e dos técnicos. gosto de saber das nossas experiências passadas e bem sucedidas. gosto de aventuras. mas não gosto nada de estar cheio de medo.

sábado, janeiro 08, 2005

pano do pó

suspenso na atmosfera, percorri com a brisa os campos, pinhais e serranias, dancei com as árvores e as areias do mar, pousei nas nuvens, nas gotas de água e em pétalas de rosas. fui livre, caminhei voluntariamente ao sabor do vento, fiz parte do mundo, do ar. fui substância que existe, que se move, que se aconchega em cada canto para logo a seguir ser pena ou tinta. até ao dia em que caí no teu colo.

indiferente, sacudiste a tua saia, era seda preta, e, bêbado do teu cheiro, rolei pelo ar até que caí na superfície branca da tua mesinha de cabeceira. ali estive dias e dias, vendo-te dormir. vendo-te em cada manhã, cada vez mais bonita, cada vez mais leve, cada vez mais preso ao teu olhar meigo. era pó no reino dos sonhos. sonhos meus que se prendiam ao teu corpo, no teu quarto.

manhã de Inverno, vestido frio, lábios suaves, houve outras mãos em ti. estranhei a luz que corta e magoa. e reconheci-me na tua escova espelhada, esquecida ao lado do candeeiro de madeira escura. era pedaço de nada no teu mundo, apenas pó. pó na tua vida.

e hoje, perdido nas chuvas ácidas, entrego ao sono a arca da memória que trago comigo. por vezes, ainda sonho e descubro novamente aquele dia em que senti, pela primeira vez, a suavidade das tuas mãos contra o calor da flanela quente.
para fazeres de mim pó. esquecido entre os panos que cobrem o teu corpo.

sexta-feira, janeiro 07, 2005

valeu a pena

a subida à montanha nunca é fácil. quantas não são as barreiras, os buracos escondidos pelos arbustos, o suor que escorre, a garganta seca, o cansaço, os pés que não querem mais. mas o melhor está lá em cima, mesmo no cume. é lá que eu quero chegar. é lá que eu quero estar. é de lá que venho hoje. do cimo da montanha. das nuvens. da certeza de que valeu a pena. as horas, os minutos, a dedicação a um projecto que se tinha possível, mas árduo. por isso, a satisfação pessoal é hoje o prato do dia. e acreditem que, uma vez lá em cima, o mundo cá em baixo ganha novo sentido. porque é preciso voltar a descer e subir novas montanhas todos os dias. mas isso vem depois, porque hoje descansa o guerreiro. feliz. deixem-me pois gozar os vossos sorrisos. os sorrisos que encontramos no princípio da descida em forma de reconhecimento. e para tudo isto basta darmo-nos às causas e viver a vida intensamente.

domingo, janeiro 02, 2005

a questão

2005

o país das perguntas, de Fernando Penim Redondo

e agora? quem responde às perguntas de 2004?

sábado, janeiro 01, 2005

sede de ti

o sol hoje não acordou cedo como muitos de nós. ficou perdido nos sonhos, enleado ainda pelos ritmos dançantes da noite, vagueando, através do sono, pela multidão que festejava. eu andei ontem na sua companhia e à noite, já sem o ver, qual criança a quem prometeram amor, esperei por ti. ansiava pela tua chegada, pelo teu sorriso descarado, pelo teu cheiro, pela tua pele suada e doce. ansiava os teus lábios num beijo de festa! romperam no céu as cores, abriram-se milhares de garrafas e entrou o novo ano. eu também festejei... na esperança de mais uma noite contigo. mas com a música, frenética, alegre, contagiante, voaram as horas. e de ti apenas um simples sms. nada mais.
castigo? talvez. fui eu que te fiz o mesmo há exactamente um ano. fui eu que não apareci, fui eu que te deixei sozinha, atada a esse amor. e mesmo assim tu voltaste sempre. até hoje. e na consciência pesa a certeza de que o "nós" é tão passado como o velho ano. porque há coisas que a razão desconhece e eu não conheço a razão.
e agora que faço eu de mim? vou procurar o sol e talvez ele, por esses dias, me indique alguém a quem eu possa entregar este amor que me deixaste de herança.

no palco da vida

Escondo-me por trás da máscara.
Entro no palco da vida sorrindo...
O público me aplaude... Meu íntimo chora.
O espetáculo continua...

Um choro incontido, alma sufocada.
Incorporo um personagem, a sessão vai começar.
No teatro da vida já não sinto mais o chão...
Choro baixinho... Os minutos são eternos,
As horas longas...Dia fatídico;

Já é hora de retornar...
Refugio-me na escuridão do meu quarto,
Em silêncio busco uma razão,
Arranco a máscara que me sufoca.
Já posso chorar livremente...

O silêncio se quebra, a porta se abre...
O coração dispara, não posso disfarçar;
Preciso dos teus beijos, estou carente de você...
Sem forças para lutar, desfaleço...
No devaneio dos meus sonhos, em seus braços,
sacio a sede te amar.

Ana Alice Zanettini

de volta a mim

depois da magia, das estrelas, das cores no céu, da euforia, dos copos cheios, dos líquidos multicolores, do ritmo alucinante dos dias, da festa e da dança, sinto finalmente o corpo. estou de volta a mim. serenamente de volta.
e, usando expressões de toda a gente para toda a gente, ano novo, vida nova.
os desafios são os mesmos. as promessas as mesmas. os sonhos os mesmos. no entanto, tudo parece novo. tudo ganha novas formas e o ânimo sai redobrado. 2oo4 para 2005. o espaço de um minuto para o outro, como em tantos outros dias ao longo do ano. todavia, esta noite é diferente. os homens pelo menos assim o pensam. e quem sou eu para contrariar...
a provar isso mesmo, lavei a cara do teatro. não sei se gosto mais ou menos. está diferente pronto.
quanto às palavras que nele habitam... as palavras jamais morrem, ad eternum...

Que os versos não se apaguem
onde o tempo arrefece

E que a mensagem dure
para lá da vida

Que o corpo as traças comem
e a alma sempre se esquece

Mas a lápide consagra
a palavra que é querida
(19/06/2000)
e um novo tempo começa!

sexta-feira, dezembro 31, 2004

esta é uma noite para comemorar

esta é só uma noite para partilhar
qualquer coisa que ainda podemos guardar cá dentro
um lugar a salvo para onde correr
quando nada bate certo
e se fica a céu aberto
sem saber o que fazer
esta é uma noite pra comemorar
qualquer coisa que ainda podemos salvar do tempo
um lugar pra nós onde demorar
quando nada faz sentido
e se fica mais perdido
e se anseia pelo abraço de um amigo
esta é uma noite para me vingar
do que a vida foi fazendo sem nos avisar
foi-se acumulando em fotografias
em distâncias e saudade
numa dor que nunca cabe
e faz transbordar os dias
esta é uma noite para me lembrar
que há qualquer coisa infinita
como o firmamento
um sorriso, um abraço
que transcende o tempo
e ter medo como dantes
de acordar a meio da noite
a precisar de um regaço
Mafalda Veiga, in Tatuagens
um espectáculo de 2005!

na hora do balanço

apanhado de surpresa pela fúria dos acontecimentos, acabei engolido pelo tempo. quando dei por mim já lá ia uma semana inteirinha sem plateia, sem teatro, sem palavras. apenas a vida. nua e dura. o trabalho, as reuniões, as iniciativas, os preparativos para tudo e para nada, a busca de sonhos, a realização de outros, horas, minutos, segundos tão fugazes como a vida. e hoje, qual peça trágico-cómica, dizem-me que acabou mais um ano. e assim é.
não gosto de balanços, principalmente quando o passivo assume maior significado do que o activo e os capitais próprios são escassos. nas empresas como na vida ter um balanço destes não é nada, nada bom. contudo, felizmente (à que dar as graças a quem as merece!), o balanço dos meus últimos 366 dias não sofre daquele mal.
profissionalmente, separemos duas fases. o primeiro semestre foi para esquecer. a angústia da incerteza, o diz que disse crónico, a falta de solidariedade e companheirismo, a ruptura da equipa... e estou eu de férias no Luxemburgo e na minha caixa do correio cai a minha carta de cessação de contrato. férias estragadas? quase. felizmente, após o regresso, e lá entramos no segundo semestre, as coisas tomam outro rumo. uma nova administração assume funções, a equipa sofre reajustamentos e (à que dar graças a quem as merece) lá continuei, a bem da verdade, nada pior do que antes. há que admiti-lo: muito bem mesmo!
pessoalmente, as coisas dividem-se também em duas fases temporais. curiosamente, igualmente no primeiro e no segundo semestre. no primeiro, os momentos de prazer, a suavidade da tua pele, o olhar o mar a teu lado, o saber-te ali sempre que precisava, fizeram desses loucos momentos suaves recordações. depois as coisas tinham que ser definidas e tu acabaste longe. depois disso apenas a beleza de um rosto, o carinho de outras palavras, e a verdade é que, acredito eu, por acordares todos os dias à distância de quilómetros, cá estou sozinho. triste? quase.
os amigos são a compensação de tudo. permanecem os mesmos. iguais a si próprios. loucos, determinados, carinhosos, amigos e pronto. a vocês, aos que estão longe e aos que estão perto, dedico o meu ano. obrigado por tudo.
e o balanço resume-se assim: o activo engloba a profissão, a realização pessoal e a concretização de alguns sonhos e o passivo acumula as despesas com o campo emocional. os capitais próprios assumem no meu balanço o enorme peso da amizade. e essa (à que dar graças a quem as merece!) dá-me equilíbrio para viver feliz. em consciência, de bem com os outros e com o mundo.
venham mais 365 dias. mais palavras, mais cenários, mais teatro, mais plateias. cá estou eu para os viver.

sexta-feira, dezembro 24, 2004

porque hoje é natal...

... as palavras não podiam ser mais simples.
a blogosfera já faz parte da minha família. por isso esta noite, junto dos que mais amo, beberei um copo (ou mais!) a pensar em todos vocês!
e como não poderia deixar de ser...
um feliz e santo natal para todos.

quarta-feira, dezembro 22, 2004

êxtase

depois de ler um post da Ana
Ontem,
na plenitude apocalíptica do ser,
nas ondas do teu cabelo,
suave, doce, misterioso, maresia
compreendi-me uma vez
o cheiro a lua, o azulado do céu
tu e eu transformados em nós
juntos na areia fria e de ninguém
por momentos soltas as nossas mãos
nas delícias de um vulcão
no desejo imperioso do tempo
com o mar a teus pés, suspirando
os barcos discretos, as estrelas
a multidão e tu e eu
loucos, no teu corpo meu
em tudo o que era nosso
até o tempo, até o mar, até o som
a noite do sol e sem vento
na verdade inesquecível do instante
e lá longe a vida, o mundo
ontem será sempre hoje
doce lembrança no futuro
a benção da natureza
13/06/2001

segunda-feira, dezembro 20, 2004

amizade a quanto obrigas

o telemóvel toca.
olha hoje não vai dar. preciso de descansar. sim, eu sei. pois, está bem. hoje tive um dia complicado. jovem, eu não tenho a tua vida! sim, sair com os amigos ajuda a relxar, eu sei... pronto, está bem. convenceste-me.
às 21h30 no sítio do costume.
e em dois minutos sou obrigado a reabrir a conta corrente de hoje.
felizmente, a guia de remessa não obriga a pagamento e a encomenda fica-se por umas boas gargalhadas.
os amigos são mesmo assim. estão lá... sempre.

conta corrente

venho para casa perdido na confusão dos números, das contas, dos euros, dos cheques e das facturas... no fim do dia, o sol já foi, já desliguei o computador e o silêncio toma conta do espaço. ouço pela primeira vez em largas dezenas de minutos a minha própria respiração. lenta, sincronizada, cansada. já lá vai mais um dia. mais um. a seguir vem o volante, a estrada, os faróis que nos encandeiam em cada esquina, os semáforos - sempre vermelhos! -, um gato perdido na passadeira para peões e a nossa casa... tão minha. não estás lá para me receber com um sorriso. não estás lá para me receber zangada. simplesmente não estás. e as contas, os números e tudo o resto dá lugar à solidão. sem sorrisos, sem palavras, sem gestos. tenho esperança no sonho que há-de chegar. tenho esperança no dia de amanhã. tenho esperança noutros sorrisos. quanto mais não sejam aqueles roubados à felicidade de um cheque contra recibo. até lá... boa noite. por hoje a minha conta corrente está saldada.

domingo, dezembro 19, 2004

algodão doce

adoro lençóis de estrelas. quentinhos. e o som das ondas e dos teus sussuros ao meu ouvido. do que falas nem eu sei. sei apenas que estás ali e que é bom estares aqui. é bom demais ter-te ao meu lado. recebo os teus doces beijos como açúcar. sinto a tua pele na minha, macia como o algodão. tento conciliar a minha respiração à tua. é doce a tua brisa. é suave o teu cheiro. é tão bom estar ali. aqui. gostava de cristalizar esta sensação. cristalizar o momento. para que por ele pudesse viver todas as outras horas e minutos e segundos de cada dia. algodão doce. açucar cristalizado. açúcar que se pega às mãos e que custa a largar. vejo nos teus olhos amor. e, por momentos, quero fazer parar o mundo. reduzi-lo ao nosso espaço. mas as estrelas também se vão embora e com elas se desfazem os lençóis. a vida está aí novamente. pelo menos, por esta noite, estiveste aqui. e na minha boca sempre deixaste o teu sabor. era de algodão doce.

quinta-feira, dezembro 16, 2004

no intervalo do tempo

entre o chegar e o partir novamente não podia deixar de vir aqui deixar um sorriso.
afinal, mais vale um sorriso nos lábios que um murro nos dentes!
e boa noite.

quarta-feira, dezembro 15, 2004

blasfémia

quatro cadeiras, uma mesa. ao fundo, o balcão envidraçado, as garrafas coloridas, os chocolates. sente-se no ar a disposição leve dos dias bem vividos, as gargalhadas sentidas, as anedotas geniais, as porcas, as malucas, as ‘tecla três’, as louras, as alentejanas. os turistas e as gentes da terra por ali ficam. de sorriso largo e coração aberto. sabem bem aqueles fins de tarde! e esta? qual? esta: um padre da província contava na Eucaristia um dos mais famosos milagres de Cristo, aquando da sua visita à Terra: a ressurreição de Lázaro. “E então Cristo pegou nas mãos de Lajaro e dixe-lhe: ‘Lajaro, alebanta-te e anda’ ... Lajaro alebantou-xe e andeu". Nisto, ouve-se uma voz do fundo da Igreja: ‘Andou, estúpido!’ Ao que o padre respondeu: ‘Pois andou estúpido durante uns tempos, mas depois paxou’”. num ápice, o sossego do sol ao retirar-se dá lugar à confusão: a polícia! eis que de metralhadora na mão, duas dezenas de polícias enroupem pelo bar dentro, ordenando: “Mãos ao ar! Estão todos presos por blasfémia!” o quê? por blasfémia? vê-se então levantar-se de uma das quatro cadeiras iniciais António, um velho pescador, que do alto dos seus cabelos brancos, enche o peito de ar e questiona: “Então que é feito da liberdade de expressão?” o rosto do oficial presente transfigura-se e, num berro, sentencia: “Quem? Liberdade de expressão? Mas eu quero lá saber da sua mulher para alguma coisa! Choldra, já!”
"Se não forem cuidadosamente delineadas, podem ser assaz perigosas as propostas oficiais de revivescência e ampliação do crime de blasfémia em alguns países europeus (Holanda, Reino Unido)" in Causa Nossa.

segunda-feira, dezembro 13, 2004

mãos

mãos. as tuas mãos que vagueiam perdidas sobre a areia. mãos que procuram o corpo, a certeza, o calor, o coração que as largou ao vento. sentem o mar por baixo delas, lá no fundo, a imensidão de tudo por baixo do manto arenoso, por baixo de milhares de grãos de areia, por baixo das tuas lágrimas. mãos. as tuas mãos que procuram as ondas que fogem, que vêm e tornam a fugir. como todo o mundo, como o teu corpo e o meu corpo que se entrega e se recolhe, se dá e se esconde. as tuas mãos apoiadas na solidez da incerteza. as tuas mãos no nada. as tuas mãos vazias de alma. as tuas mãos no fogo da paixão esquecidas de amar. as tuas mãos sozinhas, enraivecidas, cruéis, parciais. as tuas mãos juízas da vida. as tuas mãos que sentenciam o rumo da areia, dos grãos que te escorrem pelos dedos e se deixam levar pelo vento. as tuas mãos ali, esquecidas, sem anéis, sem alianças. sozinhas. mãos. longe de ti, longe de mim.

domingo, dezembro 12, 2004

momentos

há momentos, pequenos, nas horas
que nos transportam para lá de nós
levam-nos para junto da nossa voz
onde o sonho se enche de histórias

lá onde o sorriso se põe como o sol
onde a lua brilha e luz na penumbra
entre desejos perdidos na bruma
que se escondem da luz do farol

há momentos, grandes, nos minutos
que nos fazem homens com vida
escuta-nos a alma no tempo perdida
onde a chuva cai e brincam os putos

lá onde a idade não mora, mas vive
não chora, mas ri e dança sempre
onde se vê flores feitas de gente
e se canta com amor o vento livre

28/02/2002

...

"se não lutarmos pelo futuro que queremos, o mais certo é termos o futuro que não queremos"
das frases que me acompanham desde sempre.
e aqui o sempre é um dia em que li a "fórum estudante", já lá vão uns anos valentes, e o secretário de estado do ensino secundário da altura, cujo nome façam o favor de não me perguntar, disse esta frase, incentivando os alunos à defesa dos seus interesses. era preciso não desistir. não baixar os braços. era preciso lutar sempre. por nós e pelos outros.
acreditem ou não, apaixonei-me pela frase e ainda hoje, em surdina ou bem alto, a faço discursar para mim. tantas e tantas vezes.

no meio do palco

abre-se a cortina no pequeno teatro
no meio do palco, sozinha
acaricia as sapatilhas
no meio do palco, sozinha
um silênciono meio do palco, sozinha
olhares perdidos na galeria
no meio do palco, sozinha
acaricia o corpo lânguido
no meio do palco, sozinha
medo de tudo, menos de dançar
no meio do palco, sozinha
vestidinho justo, postura firme
no meio do palco, sozinha
cabelo vermelho levemente quente
no meio do palco, sozinha
pés no assoalho, um pulo
no meio do palco, sozinha
todas as músicas
no meio do palco, sozinha
duas piruetas
no meio do palco, sozinha
escuro na coxia
no meio do palco, sozinha
outro pulo bem alto e um rodopio
no meio do palco, sozinha
orquestra fantasma
no meio do palco, sozinha
anos de estudos
no meio do palco, sozinha
um diário de verdades
no meio do palco, sozinha
lembranças de dias bons
no meio do palco, sozinha
tempo solicitado
no meio do palco, sozinha
horas em cima de dedos
no meio do palco, sozinha
beijo de brisa
no meio do palco, sozinha
um vai, uma volta
eu, na platéia
você, no meio do palco
quem disse que estamos sozinhos?
SP 11/10/01 Jean Boëchat

sábado, dezembro 11, 2004

vocação

vocação para mim é o talento ao serviço de um fim.
o talento que encontro na mãos de uma médica muito jovem, que para lá da sua competência técnico-profissional, em fase de consolidação é certo, transporta consigo o amor pelo que faz, aliado a uma intensidade humana fortíssima. com ela, aprendi que os médicos também têm nervos, também suam, também têm medo e também nos pedem para rezar. por eles e por nós.
o talento que encontro nas mãos de um cirurgião-chefe, do alto da sua autoridade científica, afastado dos medos, dos nervos, dos receios, das rezas e que se dá ao trabalho com conhecimento de causa e ponto final. no final, depois da obra feita, sorri e também sabe contar histórias.
o talento que redescubro no brilho dos olhos de uma assistente social que sofre com o paciente, que ri com o doente, que chora com a vida. com ela aprendi o verbo entrega. aos outros, a nós próprios, à vida pelo prazer da vida.
com todos eles aprendi o que é vocação. com todos eles, aprendi a acreditar num país melhor. aprendi que é possível, mesmo dentro do sistema nacional de saúde, haver funcionários públicos competentes. ao serviço de todos.

cuidado: frágil!

depois desta minha última semana, e ainda em fase de recuperação, houve conceitos estruturais que se alteraram definitivamente na minha forma de ser. e o que é que eu quero dizer com esta frase sacada à moda do Dr. Sampaio? que para mim todos nós, homens e mulheres, devíamos trazer escrito, em local bem visível (a testa parece-me bem), a frase: cuidado: frágil! porque é disso que se trata efectivamente a vida humana: algo de muito frágil. podemos estar bem, sentirmo-nos os melhores do mundo e, de repente, sem quê nem para quê, aí estamos nós diminuidos fisica ou psicologicamente, porque o corpo ou a alma, este sistema complexo, nos resolve pregar uma partida. nestes dias, sublinho a importância da saúde na nossa vida. reconheço a efemeridade da vida humana.
todavia, sei que pelos condicionalismos da vida prática, lá virá o tempo em que estes considerandos não terão valor nenhum. farão apenas parte de um momento, daquele momento passado. contudo, é hoje, neste momento, que os sinto e que, por isso, os devo sublinhar. porque são reais e devemos aproveitarmo-nos da lucidez quando ela nos visita.
e deste discurso, retiro para o meu interior, que a vida é frágil. que os sorrisos são importantes é no presente, porque se o futuro têm importância ele, em si, é incerto.
por isso, meus amigos, há que viver a felicidade hoje.
afinal, um sorriso não custa assim tanto. e amanhã pode já ser tarde demais.

sala de (des)espera

e é assim: de um momento para o outro, eis-nos perante situações completamente novas. ali estava eu, após uma semana de dores intensas na zona umbilical e uma passagem pela médica de família, na sala de espera do hospital. a triagem foi rápida, deram-me uma cor qualquer (ainda hoje estou para descobrir qual), e mandaram-me esperar. "naquela sala ali. sente-se e espere". a sala estava vazia. eu, a televisão e as paredes nuas. brancas e amarelas. que seca! bem que podiam dar um pouco mais de alegria à sala, mas enfim... é o serviço de saúde que temos. e lá estava ela, em lugar de destaque na parede central, a placa informativa: sala de espera. e eu continuei à espera. dezenas de minutos depois a sala já estava cheia. as dores continuavam, as cenas da política à portuguesa repetiam-se na televisão e eu continuo à espera. alguns minutos depois, revejo a placa informativa com mais pormenor: sala de desespera. o quê? não é que alguém tive a feliz ideia de acrescentar à placa, em local estratégico diga-se a bem da verdade, três letras, escritas a preto e à mão, e que tornaram a sala de espera em sala de desespera. como eu compreendo essas abençoadas mãos! e de repente, ouve-se no altifalante, para que todo o hospital fique a saber: "ricardo, gabinete de cirurgia". gabinete de cirurgia!? ok, eu tenho calma, levanto-me e lá vou eu...

segunda-feira, dezembro 06, 2004

ao final do dia...

as estrelas estavam lá, dispersas no azul escuro da noite. a areia primeiro, um extenso areal fez-me companhia, acompanhando-me os passos ao longo da avenida. está bonita, a nossa avenida, após a queda de algumas estrelas que, imaginem só, ficaram penduradas nos ramos despidos das árvores. mais longe, já depois de muitos passos e passos, perna para lá, perna para cá, ouvi os sinos da Igreja tocarem. uma melodia doce, recortada pelos compassos das ondas. que combinação original, vejam só: ondas e sinos. mas a nossa Figueira é assim mesmo.
levei por companhia a solidão. uma excelente companhia, digo-vos já. pelo menos, está sempre disposta a ouvir os nossos desabafos e raramente discorda de nós, salvo uma ou outra vez em que a consciência se mete ao barulho. e ela acompanha-me, indiferente, inspirando, expirando, ao ritmo das ondas que vão e vêm. o mar está tão masinho. e a noite está fria, mas aconchegante.
há outras almas perdidas na avenida. às vezes, gostava de te ter por companhia. poder falar contigo. e chegar a casa, de mãos dadas contigo, com a penca do nariz gelada, mas a alma bem quentinha.
mesmo assim, sem a tua presença, gosto dos meus passeios. da minha avenida. dos meus passos, noite fora, vigiado pelas ondas, sonhando contigo.

domingo, dezembro 05, 2004

no quente do frio

gosto de Dezembro. do frio lá fora, da lareira que arde cá dentro, dos parágrafos do livro que vou lendo deitado no chão da sala. do silêncio do frio. do silêncio das palavras escritas. gosto também de pensar em ti. imaginar o que fazes nesta noite fria. imaginar o que poderíamos fazer juntos. lembras-te? porque é que o prazer teima em ser como a madeira que arde para me aquecer? porque é que durou tão pouco? arrependido? talvez.
fecho os olhos e dou comigo, de novo, abraçado a ti. lá fora está frio. e cá dentro ferve-me o sangue na certeza da tua presença. e sonho. até que um novo dia chegue. longe de ti, mas consciente dessa verdade.

quinta-feira, dezembro 02, 2004

palavras da época

tal como a fruta tem época também as palavras a têm. noite feliz, noite feliz. palavras adormecidas, escondidas no pó dos dicionários, dos livros, surgem novas, cheias de sentido, com carácter e determinação. é como se nascessem agora, nesta hora, nesta época. tal como as castanhas no outono, os pêssegos, os morangos, as ameixas e as romãs no verão. é natal, é natal. solidariedade, família, sem-abrigo, entreajuda, carinho, amizade são palavras da época. só nesta altura são proferidas e lembradas. é como se durante todo o resto do ano não existissem. vivem no esquecimento. infelizmente, para todos nós, ainda ninguém se atreveu a dar-lhes o destino das laranjas, das maçãs e das bananas. é que esses frutos existem todo o ano. são como o natal: quando um homem quiser. mas enquanto assim não for, e porque estamos na época delas, bebamos dessas palavras o seu néctar. afinal, mais vale agora que nunca. e um feliz natal para todos.

quarta-feira, dezembro 01, 2004

o (re)nascimento de um palco

eu gosto do verbo nascer. vir ao mundo; começar a ter vida no exterior, diz-se no dicionário. dar de si aos outros. apresentar-se. para um actor, para o teatro, ver o nascimento de mais um palco é ver surgir uma incubadora de vida. uma estufa de atitudes, sentimentos, gestos e olhares. ali a vida faz-se de muitas vidas. o suor é dado com amor, com entrega, com paixão. as vidas irrompem-nos o corpo e a alma, tomam conta de nós e dão-se aos outros. por isso o verbo nascer é para mim sinónimo do verbo dar. foi pois com emoção que vi o (re)nascer do palco do Grupo Caras Direitas, em Buarcos. novinho em folha, com tudo aquilo a que tem direito, com todas as condições de vida, para quem nele quiser viver. basta agora, para dar razão à minha emoção (e ao dinheiro gasto), que nele se construa um projecto de vida, como a associação, os sócios, os figueirenses e o teatro em geral tanto desejam e merecem. sim, porque uma vida quer-se vivida. com prazer e humildade.

sem palavras

porque é feriado. porque me apetece. porque sim.

terça-feira, novembro 30, 2004

obrigado, senhor presidente

o Presidente da República vai dissolver o parlamento. a plateia, os actores e equipa técnica agradecem efusivamente esta prenda de natal antecipada. o país merece.

a frase do dia

"Errar é humano, insistir no erro é americano."

o novo diário da bridget

um filme mais. bem ao estilo britânico, bem in love. vi, ri e gostei. ao estilo do também britânico e apaixonado "love actually is all around", dá para passar um serão bem descontraído. o argumento é demasiado básico, dirão alguns, mas, num mundo tão complexo como o de hoje, é bom sonhar com a vida da "nossa" Bridget Jones. afinal, o amor pode estar em qualquer lado, sejamos nós o que formos, e por si só tornar a realidade bem mais feliz. no final do filme, trago comigo uma certeza: os sorrisos podem ser bem mais simples.

catedrais

são locais de culto. locais de eleição de milhares e milhares de pessoas. por fé, por vício, por distracção. a grandiosidade dos espaços. a escolha humana.
passei por Fátima. a sua catedral, a fé, a devoção, o intimismo e a sensação de uma presença... divina, dirão alguns. critico o aproveitamento consumista do templo, mas mesmo assim admiro o espaço. a multiplicidade de raças, de ideias, de confissões, de cultos, de devoções, de nacionalidades, num espaço único. mesmo sem grande convicção no dia a dia, teimei em queimar uma vela... significa o que significa, mas a sensação é de conforto e bem-estar. catedral da fé.
terminei no Carregado. o campera, o "outlet das grandes marcas", fervilha de gente. devoção, dirão alguns. o tempo é de crise e os preços baixos convidam à visita. são imensos os casais, imensos os sacos de compras, imensa gente em tudo quanto é loja, seja ela do que for. catedral do consumo.
pois, catedrais diferentes, mas ambas escolhas da pessoa humana. como manda o século.

sábado, novembro 27, 2004

a caminho da noite

"hoje eu vou ficar por aqui
não esperes por mim
eu já te dei mais do que eu sei
eu já fui já andei
não esperes por mim
e tudo o que eu queria
um tempo para mim
sabes bem que é inutil mudar
que o tempo faz parte de mim
hoje vou ficar
hoje quero ir
ao fim desse olhar
só para te sentir"


palhaçada cultural

"UE: 10 ministros propõem acrescentar Carta da Cultura à Constituição Europeia
A encerrar a Conferência de Berlim sobre Política Cultural Europeia, ministros da Cultura de 10 países europeus propuseram hoje que se acrescente à Constituição Europeia uma Carta da Cultura." in Agência Lusa.
Muito lindo! E, pergunta o actor, isso resolve os problemas que hoje em dia assolam, em grande escala, várias agentes e promotores da cultura em Portugal? Se em Portugal nem sequer há uma política concertada para o sector?! A bem da verdade, até temos um Ministério da Cultura, mas alguém sabe o que faz? E para onde vai o dinheiro?
Mas, enfim, é mais fácil assinar Cartas e Protocolos do que pô-los em prática. E está tudo dito.
PS: Este não é habitulamente o registo das palavras neste teatro, mas, desculpe-me a plateia, eles inventam cada uma que eu fico chateado, é evidente que fico chateado.

marioneta do amor

no DNa, como sempre, li esta bela frase da grande estrela do cinema europeu Hanna Schygulla: "o meu mais belo sonho é tornar-me uma marioneta do amor". parei a leitura e reli uma vez mais: "uma marioneta do amor". adorei ou não fosse eu o fiel autor de tantas das palavras deste teatro. e à mesma senhora fui buscar a explicação: "é o amor que me puxa os cordelinhos, que me motiva, sobre todas as suas formas". ponto final. olhei o céu para lá do vidro. estava cinzento, "vem lá chuva", ouvi dizer. e sonhei um dia cumprir o sonho da Hanna. tornar-me uma marioneta do amor... eu e todas as pessoas que, já hoje, são marionetas... embora hoje os seus cordelinhos sejam puxados por interesses bem menos importantes. para pensar e sonhar.

sexta-feira, novembro 26, 2004

sorrisos

"Distribuir sorrisos através de palavras…" in Delírios2004
É o que tento fazer. E está tudo dito.

palavras lidas

"ANEDOTAS SOBRE LOURAS
A Hungria poderá aprovar uma lei que proíbe as anedotas sobre louras.

De facto, no Parlamento de de Budapeste deu entrada uma petição entregue por um grupo de louras que assim protestam contra o que afirmam ser uma autêntica discriminação “no mercado de emprego, no local de trabalho e mesmo nas ruas”. “Se é proibido discriminar judeus ou negros, por que não dar a mesma protecção às louras?” – afirmou uma porta-voz do movimento, a ‘louríssima’ Zsuzsa Kovakcs." in
Correio da Manhã
Ai se os nossos compadres alentejanos sabem...

bom dia, sexta-feira

é mesmo isso. um bom dia. com a certeza de que amanhã é fim-de-semana. com frio, sol ou chuva. para descansar, para brincar, para passear, para dormir agarradinho a ti, para nós. bom dia. para todos.

quinta-feira, novembro 25, 2004

páginas brancas

"A tela que utilizas é nada mais, nada menos que a folha de papel aberta em branco, pronta para ser pintada!" Deixa-me pintar nesta tela o meu palco. O palco vazio, o palco branco ou preto, o espaço do nada. Onde, como em qualquer folha branca, o tempo se dá às nossas mãos. Ali, desenhamos espaços, cenários quentes ou frios, urbanos ou rurais, de interiores ou exteriores. E com as cores das tintas e das madeiras, nasce a vida. Como a vida que desenhamos no papel. "Espero que os momentos com que olhas os olhares dos outros se tornem nesta folha cores singelas e quem sabe aqui encontrarás o teu terreiro das emoções!" Aqui, nas páginas brancas que me ofereces, bebo as palavras e a vida que dou aos palcos. Porque o palco também é um terreiro das emoções. Emoções que não vivemos, mas que sentimos. Emoções como as que as tuas palavras, serennablack, me fizeram sentir. Porque na vida, no palco, nas páginas que vamos preenchendo, sabe bem saber das palavras dos que nos olham. Com carinho.

terça-feira, novembro 23, 2004

guerra aberta

pois é, meus amigos, a mente humana é lixada. em português corrente, fodida mesmo. no amor então, ui, meus senhores, o que esta desgraçada faz ao corpo. se gosta, entrega o corpo, a alma e a vontade, quando não a vida por completo. nas mãos, nas tuas mãos, nessas mãos que me acolheram noites e noites e me acariciaram em tantas manhãs. depois, que puta de mente, de vida!, descobri num olhar o prazer que as tuas mãos, o teu corpo se ia recusando a dar. por minha culpa, por tua culpa, por nossa tão grande culpa. ámen. e fui, perdido, mas fui. a mente enganou o corpo e o corpo gostou. findo o primeiro acto, descobre-se a verdade. é das tuas mãos, do teu corpo que eu preciso e que já não tenho. e a minha mente dá-me lágrimas e o corpo o arrependimento. mente vs corpo. está a guerra aberta. num lar perto de si.

domingo, novembro 21, 2004

neste domingo...

o sol está quente e o rosto sente. para cá da janela o dia está mágico. no descanso do fim de semana, sento-me frente às palavras e delicio-me com elas. vejo o meu gato, espreguiçar-se, enquanto dorme o sono dos justos. a rua deserta, o céu de um azul ténue e o sol que brilha o briho do Outono. lá fora está frio. adivinham-se os fumos nas chaminés, as luzes a piscar nas varandas, as compras apressados ao fim do dia... vem lá o natal! enquanto isso o autor relembra o sabor das castanhas, nas acabadas festas de São Martinho, e dá graças aos deuses por estar vivo. ao sol. neste domingo...

O terreiro das emoções

Esta manhã levei-me ao aeroporto. Lá, entre as partidas e as chegadas, check-ins and gates, malas, malotes e sacos de mão, travei conhecimento com as emoções. Lágrimas de quem parte e de quem fica, lágrimas de quem chega e de quem já cá está. Abraços sentidos. “Todas as cartas de amor são ridículas”, dizia o poeta, e elas transformam-se em acções quando há amor. Provavelmente ridículas também, mas sentidas. E isso é o que importa. Vejo namorados que se despedem com beijos doces perdidos entre lágrimas. Imagino-me pintor diante do “momento”, mas não tenho telas nem pincéis. Apenas o olhar, o meu olhar perdido, no terreiro das emoções. Porque ali elas são sentidas. Sem convenções. Todos os dias, a todas as horas, nos aeroportos do Mundo.

Dia da memória

Da fraca memória. Dos pés pesados. Das velocidades inconscientes. Das manobras perigosas. Das mil e uma campanhas de sensibilização. Da realidade nua e dura, esquecida todos os dias na estrada. Das vítimas. Porque um volante não é um meio de afirmação, mas antes a “triste” projecção do homem diante de si mesmo: uma besta. Até quando?

quinta-feira, novembro 18, 2004

o espírito da dança

22h. Grande Auditório do CAE. Spirit of the Dance.
“Spirit of the Dance” é considerado um dos maiores espectáculos de dança de sempre, e um dos que mais êxito colheu a nível internacional, batendo recordes de bilheteira em todo o mundo. Trata-se de uma fusão da cultura irlandesa com diferentes ritmos e danças do mundo como o Tango, Flamenco, Salsa, Tap ou Jazz, e tem a particularidade de incluir no seu set alguma da cultura popular dos países por onde passa. Distingue-se ainda pela extrema qualidade dos seus bailarinos, campeões do mundo de dança irlandesa, que executam os seus passos com uma destreza e precisão impressionantes. A par com um vestuário deslumbrante, vão criando, assim, imponentes coreografias onde sobressaem igualmente uma espectacular iluminação e uma música poderosa, que fazem continuamente vibrar o público. Como alguém já definiu, “Spirit of the Dance” é “a apoteose num palco”.
in CAE
Eu vou.

o princípio do fim

avante, camaradas, avante...
lutam, defendem valores, acreditam em ideais e são...
e no fim, depois de tudo, do sofrimento, das fugas, das torturas e das censuras, são livres num país livre.
e mesmo assim suicidam-se.
é o argumento de uma candidatura à liderança de um partido com mais de oitenta anos de história, num congresso que promete ser dos últimos.
a vida só acaba quando não a reanimamos. quando não lhe damos oxigénio, novo sangue.
é por isso que, como diz o Amicus Ficaria, estas eleições são eleições para "coveiro".
resigno-me.
afinal, não há pior cego que aquele que não quer ver.

quarta-feira, novembro 17, 2004

nervos à flor da pele

Há pessoas calmas, outras nem por isso.
Há pessoas pacíficas, outras nem por isso.
Há pessoas coerentes, outras nem por isso.
Há quem fale de menos, há quem tenha garganta a mais.
Há quem acuse injustamente, há quem seja injustiçado.
Há quem compreende, há quem faz por não compreender.
Há pessoas más, há pessoas boas.
Há pessoas de quem gosto, há pessoas de quem não gosto.
Há este mundo, há esta vida.
À que aguentar... e ser feliz! Sem stress!

terça-feira, novembro 16, 2004

é preciso viver

é preciso coragem.
parar para responder.
seguir a viagem.
e voltar sen ninguém saber.

respirar. inspirar. expirar.
e vão os minutos, voam as horas
pássaros sem asas
livres sem céu

é preciso coragem.
secar as lágrimas.
sorrir com o sol.
e acreditar que amanhã será diferente.

segunda-feira, novembro 15, 2004

a emersão da consciência

quando a verdade se reveste de nós, aguda-se um problema: a consciência.
e ela tantas e tantas vezes nos atraiçoa o orgulho, nos maltrata o corpo, se reveste de angústias, ansiedades, se apodera do tempo e faz de nós o que nós não conseguimos fazer dela...
no amor, na verdade, no ódio, na amizade, no perdão e na saudade.
quando a consciência se faz lembrar, tenho medo. lá se vai o meu orgulho.
e não sei se hei-de responder certo ou fazer errado. pelo que o coração quer ou pelo que a sociedade impõe. falta-me a coragem...
e no fundo, adoro a vida. vá-se lá saber porquê...

sábado, novembro 13, 2004

o tempo que passa

o dia passou. o sábado perfeito do verão de são martinho. quente ao sol, frio à sombra. infelizmente não dei ao
corpo e à alma o descanso que já mereciam.
hoje, abro os olhos, e vejo que passaram inúmeros actos sem ter dado por isso. uma semana inteira de tempo e o tempo passou por mim sem acenar. passou simplesmente.
a vida é efémera. ponto final.
acreditemos que o domingo será melhor. vamos a ver...

segunda-feira, novembro 08, 2004

um péssimo argumento

hoje a verdade é novamente cruel.
o responsável pelo argumento não acerta uma para a caixa. e eu começo a ficar deveras preocupado.
alguém reparou no que a SIC noticiava hoje, em rodapé, ao final da tarde? era mais ou menos assim:
"reformados... empregados! o Governo propõe que os reformados até aos 70 anos possam vir a poder trabalhar em part-time!"
Desculpem lá! Ou eu tenho andado muito distraído ou é verdade que o número de desempregados aumenta a cada dia? Principalmente, jovens e recém-licenciados? E querem dar emprego aos velhotes que, durante toda a vida, já se fartaram de trabalhar?
Desculpe lá, senhor argumentista, mas assim não há público que compre este teatro!
E as palmas ficam no silêncio...

nesta "noite escura"

Paulo Branco apresenta, João Canijo realiza.
Uma "noite escura" numa casa de putas. Rita Blanco, Fernando Luís, Beatriz Batarda em magníficas interpretações. Um retrato cruel, nú, duro e verdadeiro da noite. Do tráfico de mulheres, dos pagamentos com o corpo e com a alma. A verdade nua e dura.
Vale a pena chocarmo-nos. Ouvir o português mais ordinário e tirar as conclusões que devemos. Despir a hipocrisia, retirar a venda dos olhos e aceitar algumas verdades.
Num domingo à noite sabe bem deixar o palco e dar lugar às emoções em 35 mm. Pelo prazer da sétima arte. Em português.
Porque hoje já é segunda-feira outra vez. Para o que der e vier.

sábado, novembro 06, 2004

as palavras do pintor

às vezes na plateia encontramos pessoas realmente fantásticas. Exemplos. Flores. Pássaros. Aves. Resistentes. Donos do tempo. De nós. Das experiências vividas...

e é um prazer ouvi-las. Receber os seus comentários calmos, certos, num tom carinhoso, quase meigo... E embebedarmo-nos nas suas palavras. E, porque não confessá-lo, também nas imagens que faz reflectir nas telas.

nos seus desenhos de paisagens, de barcos, de rios e de arbustos. Da ponte que passa o Mondego, visto daqui e dali e ainda do outro lado, de uma águia que sobrevoa o oceano e deste ou daquele pescador de fim de tarde... As cores são quentes e aconchegam-nos.

do alto dos seus oitenta anos, encanta-nos com as palavras e as cores. Hoje tive o prazer de falar com ele. Falámos de pintura, vejam só. O abstrato, o real. Contou-me a lenda do rei sem camisa e eu ri. Concordei também.

para ver e ouvir no CAE. Norberto Guimarães, até 14 de Novembro.

sexta-feira, novembro 05, 2004

santo dia, depois que acaba...

É assim todas as sextas. Larga-se a mesa do escritório e, com um sorriso largo, lançamos a mais feliz das frases aos desgraçados que ainda ficam: "bom fim de semana!" Para eles há-de ser bom concerteza. Pelo menos não terão que nos aturar as manias, o fumo dos cigarros, as piadas infelizes e todo um conjunto de tristes qualidades que nos formam a personalidade e nos hão-de acompanhar até à bendita morte. Enquanto isso, nós, bem felizes, saímos, respiramos o ar da rua como se fosse o mais doce dos aromas, e preparamo-nos para esses dias de descanso. Sábado e domingo. Como é bom... Que o sol nos acompanhe.

quarta-feira, novembro 03, 2004

burro sim, americano nunca...

Podia ser um drama de autor. Podia ser uma tragédia clássica. Podia ser uma piada de mau gosto, de muito mau gosto mesmo. Podia ser simplesmente um pesadelo. Mas não é. É real e a mais pura das verdades. Nua, crua e dura.
Mas vamos aos factos, à história da peça. Tudo se passa do lado de lá do oceano, lá onde o sol se esconde todos os fins de tarde, pensava eu que com vergonha do que via do lado de cá, mas descobri hoje que o faz porque é, acima de tudo, estúpido na verdade. Tudo ronda à volta de uma "palhaçada" mediática, vulgo eleições, e que leva milhões de pessoas a fazer uma escolha. As opções são simples: ou se escolhe o mau ou o muito mau. Resultado: vence o péssimo.
Moral da história: a fast food é responsável, para além dos elevados graus de obesidade de toda a população, pelo massacre de milhões de neurónios. Só isto explica o fim da peça.
A terminar, lembra o autor, em nota de rodapé, as sábias palavras de quem, em tempos longínquos, baptizara aquela terra de Estados Unidos da América: "os americanos lá sabem o que é melhor para eles". E nós, do lado de cá, simples actores, homens do Mundo, arriscamos, com humildade, uma profecia: "estamos fodidos!"

Ricardo Manuel Santos

segunda-feira, novembro 01, 2004

todos os santos

Lá vão eles todos catitas de mão dada como as crianças no jardim-escola. Só lhes falta mesmo o bibe de cor uniforme, seja ela qual for, azul, verde, castanho ou mesmo amarelo. Estes, os que vão de mão dada, usam trajes mais sumptuosos de acordo com a sua categoria e com a sua autoridade. Afinal, hoje é o dia deles. De todos eles. Notaram alguma inveja nas palavras do actor? Pois é, ele não consegue disfarçar, mas não se conforma com estas injustiças humanas. Ou serão divinas? Afinal todos eles, os santos claro, têm um dia cada um e ainda lhes cabe um dia para todos eles juntos! Ora bolas, então e nós os actores? Também podemos ser santos, basta ser esse o entendimento do autor. E quando é o nosso dia? 27 março, dia mundial do teatro? Pois sim, esse é do teatro e do actor quando é?
Mas voltemos aos santos, os que vão de mão dada, todos eles ao cemitério. Vão velar os mortos, aliás como toda a humanidade. Carregam fardos de flores, inflacionadas no preço como mandam as economias e no valor sentimental como mandam as almas. Almas essas que durante o ano vagueiam ao lado delas, malmequeres, rosas, cravos, camélias, gerberas, gladíleos e tantas outras, de todas as cores e feitios, indiferentes, felizes ou tristes. Vem lá o dia, este o dia de todos os santos, e todos, como por magia, se recordam dos seus mortos e vão velá-los. Coitados dos pobres defuntos, nem depois de mortos se livram da hipocrisia da sociedade.
E os santos? Esses lá vão felizes, indiferentes a tudo. Afinal hoje é o dia deles e para alguma coisa são santos.
Ricardo Manuel Santos